Chasses — Capítulo 1 — Desempregado

Estava desempregado. Era isso que passava em sua cabeça desde que acordava até a hora de dormir. As vezes até mesmo em sonho pensava naquilo. Desemprego. Um filho de oito anos, uma mulher e um cachorro — grande, diga-se de passagem — para sustentar e estava desempregado.

Naquela sexta-feira completaria três semanas nessa situação. Tinha um dinheiro guardado e poderia usá-lo para pagar as contas do próximo mês, mas não conseguiria ficar nessa situação por muito tempo.

Morar em Chicago era caro. A hipoteca da casa era absurdamente alta. Padrão de vida de um médico pediatra com vinte anos de carreira. A família em si não esbanjava conforto, mas tinham uma vida relativamente boa.

Porém agora ele estava desempregado. “Corte de custos” foi o que disseram e ele sabia muito bem o que aquilo queria dizer. Com o salário que ganhava poderiam contratar dois médicos mais novos. Não executariam o trabalho tão bem quanto ele, mas ajudariam a amenizar as reclamações pela falta de atendimento — ele era o único pediatra do hospital.

Foi Sam quem deu a notícia. Mandaram seu melhor amigo dizer-lhe que não tinha mais um emprego. Pediram que seu melhor amigo o demitisse.

Jerry McFillan e Sammuel Armstrong, eram amigos desde que começaram a cursar medicina. Desde o início do curso eles estudavam e praticavam juntos. Até as suas famílias foram criadas quase que ao mesmo tempo. Sam estava tão chateado quanto seu melhor amigo com tudo aquilo.

Mas agora Jerry estava sem um trabalho. E o pior é que não conseguia um de jeito algum. Já enviara seu currículo para vários hospitais de Chicago mas não teve retorno. Nem um e-mail de recusa. Tentou ligar algumas vezes mas sempre fora mal atendido, como se a pessoa do outro lado do telefone estivesse nervosa e não visse a hora de desligar-lo.

A única proposta que ele teve começou no mesmo dia em que fora despedido. A primeira vez chegou em forma de e-mail. Uma vaga para pediatra em uma cidade chamada Chasses. Jerry nunca ouvira falar daquele lugar, mas ao pesquisar descobriu que ficava bem no interior do Maine. Era minúscula. Mil e vinte e dois habitantes, segundo a Wikipedia.

Mas ignorou. Por mais que lá pudesse ser mais seguro para seu pequeno Rob, a mensagem era estranha e causou um certo temor nele.

Continuou procurando por emprego e os e-mails continuaram chegando. Sempre a mesma mensagem:

De: precisamosdeumpediatra

Para: jerrymcfillan@gmail.com

“Temos vaga para pediatra. Seja nosso pediatra. Chasses, no Maine, precisa de você, Dr. Jerry McFillan.”

A reação de Jerry era sempre a mesma. Selecionar e excluir. Mas então começaram as SMSs. A mesma mensagem. No fim do dia chegavam a acumular mais de 500. Estava ficando nervoso e temendo pela segurança de sua família. Chegou até a procurar a polícia, com medo de que algo acontecesse a seu pequeno filho e sua mulher, mas nunca fizeram nada. Registravam um boletim e mandavam ele para casa.

Passavam-se os dias e as mensagens continuavam a chegar. Jerry fazia sempre a mesma coisa: as excluía. Além disso, ainda estava desempregado. Nenhuma resposta e mais de 50 currículos entregues.

Estava saindo para enviar mais alguns quando o celular tocou e ele atendeu sem nem prestar atenção no número. Do outro lado ouviu a voz de uma mulher de aparentes cinquenta anos:

- Bom dia senhor McFillan. Nós precisamos de um pediatra. Você é um pediatra? Ah, acho que é sim. Nós precisamos de você. Venha para Chasses. Venha para o Maine. O senhor terá uma casa linda, senhor McFillan. A vista é de tirar o fôlego. Diga sim. Venha para nós.

Jerry ficou furioso e apesar de sempre ser educado xingou a mulher do outro lado de todos os nomes possíveis. No fim pediu para que ela não retornasse mais e desligou.

Mas de nada adiantou. As ligações aconteciam em um ciclo de 30 ou 40 minutos. Os números variavam e Jerry passou a não atender mais qualquer número que ele não tivesse salvo no celular.

Ellen, sua mulher, sempre o apoiava quando ele saía de manhã em busca do emprego. Dizia que naquele dia ele ia ter sorte e que estaria enviando energias positivas. Mas ele sabia que voltaria para casa sem nada. Que a pilha de currículos enviados e sem respostas só aumentariam.

Foi na sexta de manhã que ele ouviu o bater na porta. O Toc-toc incessante. Bateram uma, duas, três … quando estavam prestes a bater pela quarta vez o médico abriu a porta.

Do lado de fora um homem alto de cabelos castanhos o encarava com um sorriso branco. Jerry fitou-o por alguns instantes até que por fim disse:

- O que deseja?

O homem desfez o sorriso e falou:

- Ora, Senhor McFillan. O que mais senão oferecer-lhe um emprego? O único emprego que o senhor está recusando a semanas. Uma oferta, ao meu ver, irrecusável.

Jerry começou a fechar a porta ao perceber sobre o que o homem falava, mas o estranho continuou:

- Não faça isso Doutor, ou o senhor nunca mais encontrará emprego. Nem de médico, nem de empacotador de compras.

Aquilo pegou Jerry de surpresa e ele deixou-o continuar. Tornou a abrir a porta como quem dissesse para que prosseguisse.

O estranho sorriu e continuou:

- Então senhor McFillan. Nosso hospital em Chasses é padrão de primeiro mundo. Nós precisamos do senhor porque sabemos da sua reputação. Quando soubemos que tinham mandado-o embora entramos em contato imediatamente. Como o senhor não respondia nossos e-mails e nem nossas SMSs, muito menos atendia nossos telefonemas, tive de vir pessoalmente. E também precisei mexer meus pauzinhos para que nenhum outro local o contratasse. Como pode ver, tenho esse poder.

Jerry assustou-se com aquilo. Se realmente eles foram os responsáveis por ele não conseguir um emprego, aquela gente era perigosa. O homem continuou:

- O que pedimos é que se mude para Chasses em duas semanas. Será o médico-chefe do hospital e nós lhe daremos uma casa maravilhosa, no topo da colina. De lá de cima pode-se ver a cidade toda, senhor McFillan. E tem espaço suficiente para seu fillho e seu cachorro brincarem. Além disso, tenho certeza que a paisagem inspirará Ellen em seu livro.

Jerry entendeu o que o homem quis dizer. Estava querendo deixar claro que conhecia a família dele. Que caso não aceitasse a oferta, não ficaria apenas sem emprego. Talvez ficasse sem seu filho e sua mulher.

O estranho pareceu ler a mente de Jerry. Estendeu a mão e entregou-lhe um cartão. Encarou o médico com seus pequenos olhos verdes e disse:

- Vou enviar para seu e-mail algumas fotos da casa onde vocês poderão morar, para ajudar na sua decisão. Você tem três dias para nos retornar. Após isso, não haverá mais trato algum.

Virou-se e foi embora.