Precisamos de Um Programador para um Novo Mundo de Terror — Capítulo 1 — Vaga Disponível

Patrick levantou-se com um pulo. Não ouviu o despertador de novo. Já era a segunda vez que aquilo acontecia no mês e isso deixou-o irritado consigo mesmo. O relógio marcava 7:30 da manhã. Se atrasaria, tinha certeza. Foram os raios do sol que o acordaram enquanto batiam diretamente no seu rosto, e ele ficou grato por ter dormido com as cortinas da janela abertas, senão só Deus saberia que horas acordaria.

Foi correndo para o banheiro tomar um banho rápido e tentar amenizar a cara amassada que sempre ficava quando acordava atrasado. Ouviu um miado de sua gata que encontrava-se deitada na cama. Fora acordada pelo susto do dono e o miado pareceu a ele alguma forma de protesto.

- Calma ai Universo, deixa eu tomar meu banho primeiro e depois te dou comida.

A gata miou novamente, como se respondesse com um “ok, mas não demore” na língua felina. Patrick deu de ombros e entrou no banheiro.

Quando saiu, pegou a calça jeans e a blusa mais próxima e vestiu-as. Já estava descendo as escadas quando lembrou-se dos óculos. Passar o dia sem eles deixaria sua cabeça latejando de dor no fim do dia. Quando desceu, a gata acompanhou-o enroscando-se pelos pés dele. Esse era um hábito que Patrick odiava nela. Quase rolara escada abaixo algumas vezes após tropeçar na gata.

Quando desceu foi diretamente para a cozinha, ligou a cafeteira para esquentar o café que sobrou da noite anterior enquanto botava o tênis e ajeitava os cabelos pretos com os dedos. Precisava comer algo antes de ir trabalhar. Mesmo que já estivesse atrasado, tinha que preencher o estômago com algo senão o trabalho não renderia. Era um ritual — sem a parte de acordar atrasado — e não podia deixar de fazê-lo.

Pegou o pote de geléia de morango da geladeira — era seu sabor favorito e era só desse sabor que comprava — e deixou-o em cima da mesa. Do armário, retirou duas fatias de pão e levou-as até a torradeira.

Aguardou sentado na mesa para que o café ficasse quente e a torradeira anunciasse que o pão estivesse torrado e pronto para ser preenchido com qualquer coisa para comê-lo (nesse caso, a geléia de morango).

Enquanto isso, pegou o livro que estava lendo. Era um livro do seu autor favorito, Stephen King. Fazia parte de uma série de 7, e o que ele lia era o quinto chamado “A torre negra — Lobos de Calla”. Estava quase terminando ele e se surpreendia com cada página. Se inspirava em King para criar suas próprias histórias e achava que estava seguindo muito bem os passos do mestre do terror.

Não demorou muito até que as duas fatias pulassem para fora da máquina, torradas e quentinhas. Retirou uma xícara do escorredor da pia e a encheu de café preto e sem açúcar.Bebericou alguns goles e depois retirou as duas fatias e as colocou em um prato. Levou-as até a mesa e se sentou para finalmente comer.

Uma coisa que Patrick amava era encher o pão de geléia. Lembrava-se de quando morava com sua mãe e ela sempre o reprimia com um “com essa quantidade de geléia da pra asfaltar uma rua Patrick”. Riu dessa lembrança e sentiu uma saudade daquela época. Colocaria um lembrete na agenda do seu celular para visitar seus pais no final de semana. Fez a mesma coisa com o outro pão. Pronto, agora era só comer.

O café da manhã levou aproximadamente vinte minutos. Entre uma mordida no pão e um gole de café, Patrick olhava seu WattPad a fim de ler e responder os comentários de seus leitores na sua primeira história de terror. Bolara ela na cabeça após terminar de ler “Carrie, a estranha”, do Stephen King. Queria escrever uma história naquela mesma pegada. Criou uma ideia totalmente diferente, mas queria que a ambientação e o terror passados pelo livro estivessem presentes no dele também. E estava indo bem até aquele momento, pois todos os comentários sempre foram positivos a respeito do enredo e da trama. Sentia-se feliz e inspirado com eles.

Quando terminou de comer, empilhou toda a louça suja na pia. Limparia a bagunça quando chegasse em casa pois já estava muito atrasado. Lembrou-se novamente de sua mãe e da bronca que com toda certeza levaria por deixar tudo bagunçado e sujo. Porém não morava mais com a mãe e isso era um dos pontos positivos de viver sozinho. Pegou seu casaco e saiu apressado.

***

Patrick trabalha como programador de jogos em uma pequena empresa no centro de São Francisco. Entrou nessa profissão por acaso e já está na área há nove anos. Ele cria jogos tanto para computador quanto para celulares e video games.

Ia todo dia a pé para o trabalho. Era algo que se obrigava a fazer, já que detestava esportes e academia. Então, para não se tornar totalmente sedentário, caminhava. O percurso, para Patrick, demorava vinte e cinco minutos e era algo que ele gostava de fazer. Enquanto andava ouvia seus livros de terror preferidos.

A empresa onde trabalha é uma pequena casa antiga. Com Patrick, eles tem um total de sete funcionários. Não é uma empresa muito grande e os jogos produzidos por eles são rotulados como indies.

Ao chegar na sua mesa, Patrick ligou seu computador e foi encher sua xícara com café e sua caneca com água. Quando voltou, abriu seu e-mail pessoal. Leu quase todas as mensagens e uma em particular chamou a sua atenção.

O título já era um tanto quanto estranho: Precisamos de um programador para um novo mundo de terror.

Ele abriu o e-mail acreditando ser alguma vaga para um novo jogo com o tema. O texto do corpo do dizia:

Bom dia senhor Jones,

encontramos o senhor através da sua rede no linkedin. Por ela, verificamos seu currículo com programação e achamos muito interessante. Mas só isso não é suficiente para que possamos contratá-lo. Por isso acabamos fazendo uma pequena pesquisa a seu respeito e descobrimos sua paixão por terror. Em suas redes sociais, vimos seus compartilhamentos de filmes e livros desse gênero, além de escrever suas próprias histórias. É disso que precisamos. De um programador apaixonado por terror.

Temos uma excelente vaga disponível para o senhor. Caso tenha interesse em marcar uma entrevista, nos responda esse e-mail.

Atenciosamente,

Mundos de Terror Sistemas.

Patrick riu do que leu. Talvez aquilo fosse alguma piada de algum amigo seu, mas o e-mail do remetente era recrutamento@mundosdeterror.com.br. Decidiu respondê-los. Estava desanimado com a falta de desafios que seu atual emprego lhe proporcionava. Usavam tecnologias defasadas e ele tinha que aprender coisas mais atuais em seu tempo livre. Além disso, nunca deixavam que ele criasse algum jogo de terror, o que deixava-o irritado e de certa forma desmotivado. “Quem sabe eles usem algo que estudei” pensou.

Não demorou muito até que recebeu a resposta. A entrevista seria no outro dia as 8 da manhã. Foi um e-mail formal e no final diziam:

traga seu livro de terror favorito. Isso fará parte da sua avaliação.

Teria de encontrar uma desculpa para dar ao seu chefe nesse período e também decidir qual dos seus livros levaria. Seria uma tarefa quase impossível escolher um entre tantos.