A caixa não é 3d. Ela antes disso é uma estrutura composta de planos 2D, que se unem para formar um conjunto.

Think about the Box:

Rompendo bloqueios criativos através da observação

Uma das coisas que mais vejo no campo criativo é o bloqueio de ideias. Isso se deve muito ao nível de cobrança e ao formato que a gente incorpora para criar. Nossos processos criativos são tão automatizados e encaixotados que acabamos tendo a mesma linha de ideias constantemente.

São soluções diferentes, mas possuem o mesmo sobrenome, a mesma característica, formatadas pelas mesmas ferramentas. Acabamos com uma linha de soluções criativas que poderiam muito bem serem todas catalogadas em uma mesma categoria (dentro da mesma caixa). O think out of the box anda tão encaixotado quanto o think as a box. E se passarmos ao think about the box?

Imagine que você precise criar algo. Você tem um problema, seja qual for, e precisa achar uma solução que não seja óbvia, que cause impacto e que ainda seja inovadora. A proposta parece simples, mas na prática a gente sabe que não é. Quantas vezes você já criou algo e descobriu que já existia? Quantas vezes você não achou que iria causar o maior impacto com uma ideia e ninguém compreendeu? Tudo isso envolve vários fatores, que não dependem inteiramente da sua capacidade criativa, mas sim da sua capacidade de percepção, de captação. Ser observador e analista é uma característica tão essencial ao ser criativo quanto a própria criatividade. E vou além, acho que a criatividade está inteiramente conectada com a nossa capacidade de percepção da realidade, de análise. Por isso, observar é o verbo aqui.

“Ser observador e analista é uma característica tão essencial ao ser criativo quanto a própria criatividade.”

A partir da observação, podemos analisar várias formas de proceder com um problema, não partindo para a solução, mas questionando a essência do próprio problema. Você irá receber uma missão para resolver, sentar para imaginar soluções e pesquisar referências. Agora você tem uma folha em branco à sua frente. O que fazer? Por onde começar? O que é possível ser feito?

Antes de qualquer coisa, o que podemos fazer é analisar o problema, ou seja, dissecar o briefing. Imagine que você recebe a difícil missão de criar uma logo de uma padaria gourmet. Você já pensa nos floreios, na arte minimalista, seguir umas tendências, escolher aquela paleta de cores neo-hipster que você tanto queria usar, lembra das fontes que baixou da lista de 100 fontes retrôs e já projeta tudo dentro da sua cabecinha. Bem, talvez isso funcione para você, mas será que funciona para a padaria (vale uma leitura sobre o “papel de pedreiro”)?

Think about the box, boy! Isso é: Questione a sua missão. Afinal, o que é uma padaria gourmet? Qual a sua essência? Quem é seu público alvo? Quais seus propósitos e o que ameaça eles? Que sentimentos estão associados aos produtos e serviços? Vá para o seu quarto e pense sobre isso.

A partir da análise, muitas respostas virão. Mas o que fazer com elas pode se transformar em um novo desafio. Eu sugiro 3 caminhos, pra você experimentar:

Combinação

Book and Bed é um hostel dentro de uma biblioteca em Tokyo. Poderia ser apenas um hostel ou apenas uma biblioteca, mas unir os dois conceitos é uma forma criativa de resolver alguns problemas. Primeiro, se cria uma inovação a partir da combinação de dois conceitos. Segundo, se filtra um nicho de mercado e foca sua comunicação à um público específico. E o mais incrível, você dorme dentro das estantes de livros.

A criação a partir da combinação de dois conceitos ou duas características é algo bem comum. Salão de beleza com bar, celular com câmera de fotografia, self-service popular com sushi, barbearia com tatuador, guia turístico com book de fotos, parada de ônibus com TV interativa… enfim, tudo pode ser combinado e formar novas ideias.

Oposição

O Uber talvez seja o melhor exemplo de oposição. Você tem um serviço tradicional como o de táxi, que segue quase os mesmos modelos no mundo todo: motoristas mal-educados, formas de pagamento limitadas, insegurança, veículos se deteriorando, máfias e esquemas de controle do mercado, além do alto custo pelo serviço de péssima qualidade. O Uber vem com uma proposta disruptiva, de gerar um novo mercado alterando um mercado que já existe. Por isso o burburinho todo. A oposição é exatamente ter uma outra perspectiva sobre algo que já existe, modificando suas características através de novas propostas, novos conceitos, ideias e/ou atitudes.

Alteração

Agora imaginem como fica o sistema de táxis que o Uber está conflitando. Esse sistema pode reagir de frente, tentando manter seus padrões tradicionais e métodos ultrapassados, ou poderia tentar alterar sua forma de agir/vender. Com o lançamento e sucesso do Pokémon Go, muitos taxistas estão fazendo dinheiro com jogadores aficcionados que pagam para se deslocar na cidade e coletar Pokémons. Tradicionalmente, o uso de táxi é usado para deslocamentos de ponto A para B… mas e se a gente pudesse alugar um táxi por um dia? Alterar a função típica ou tradicional de algo, pode trazer novas possibilidades criativas. Quantas maneiras você consegue imaginar o uso de batatas? Que outra forma poderíamos usar um skate? Que outras funções poderiam ter um brinco?

Think about the box é sobre olhar para o problema, ao invés de focar na solução. É dissecar e detalhar, analizar e pesquisar, aprofundar e extender ao máximo o problema. E é incrível como esse processo nos trás mais insights criativos do que uma tormenta de ideias inúteis em um brainstorming, por exemplo. Experimente desenvolver algumas ideias a partir desses 3 caminhos e da análise diária dos problemas que você enfrenta e percebe ao seu redor.

Se achar que podemos evoluir essa ideia, manda tuas ideias para joao@neopopimaginaria.com. Esse texto não fala de uma verdade absoluta, é apenas uma reflexão a partir do trabalho diário de criar e se perceber como potencial agente transformador em vários processos e sistemas ao redor da gente.

 by the author.

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Designer, criativo, criança. Gosto de problema. Imaginando na @imaginariacc

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João Faissal

João Faissal

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