Quando dei por mim, tava aqui.

“Xablasca. Palavra divina, do povo xableus, oriundos da xablandia, terra das xablescas e xablius. Xablau.”

A seleção brasileira se prepara para o jogo decisivo das oitavas de final contra o tanque belga, uma das favoritas ao prêmio máximo dos seres humanos. Três paraíbas vagueiam por entre raios-xises, abre-maletas, buscasse-portões, senhores-passageiros, abrasse-bandeijas, tripulações-portas-em-automáticos, janelinhas-nuvem e sobe-desces. Gol! Da Bélgica! Pim-bom. Bem vindos à Joinville.

Chega-se em Jaraguá do Sul por Joinville. De lá se pega uma carona no carro da firma, dirigido por um dos 4 senhores da cúpula central. O destino é incerto, o frio nem tanto, mas as paradas são fenomenais. A primeira parada é em um galpão industrial com um enorme galo pintado em sua face. Lia-se: Zeit. Quer dizer “tempo” em alemão. Galo — tempo. Bier. A cerveja é produzida ali. Jackson, nosso motorista, fala com um orgulho contido: “isso é cosa nostra”. Arregala-se os olhos, cheira-se a cerva, sorriso maroto. Chega-se a Jaraguá e conhecemos nosso abrigo. Parte-se para segunda parada: Lampejo! Uma luz neon vermelha lambe os olhos de quem fala: “beber o quê?”. O Brasil perdeu, deve-se o luto. Cana. A terceira parada, é um convite ao mais underground dos níveis do inferno jaraguense: Bar do Nens, um punk funk new generation roots palace. Au revoir, les enfant.

Durante uma semana, estivemos juntos três paraíba, dois pernambuco e um rio de janeiro, representando uma ideia do que estúdios de design estão fazendo fora do sul do país. Como chegamos aqui? Afinal, o que é que tá acontecendo?

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Cleiton, Falcão, Bacic, Jackson, João Lavieri, eu, Rafael, Bernardo e Leandro no Parque Malwee.

Em Novembro de 2017, fui convidado por Dui Aguiar (Verve Works), pra palestrar em um evento em Recife, o Rec n’Play. Nesse mesmo evento, iriam palestrar Bruno Biano (Estúdio Voulta) e os caras do Firmorama. Fomos eu e Leandro Luna (Tampa Studio), além dos eternos amores da Sávia, os Lucass Bacic e Falcão. Conhecemos três dos quatro integrantes da cúpula da Firma, carinhoso apelido do Firmorama, um dos estúdios mais foda do Brazil, e que eu — pasmem!— não fazia ideia que existisse. Mea Culpa. Conhecer o projeto do Atlas, Refúgio Criativo e a relação deles com a Metro Quadrado, me trouxe uma calma, parecia que havia chegado a hora de conhecer pessoas que pensavam e agiam de forma muito parecida com as minhas crenças. Não que fosse igual, mas que soava bem demais com o meu ritmo de pensamento.

Conexão, difusão, imersão, dispersão. O clima era de standup contínuo. Só havia espaço pra risos e frases de biografia. Conhecer a si mesmo a partir dos outros, é uma das melhores experiências que a gente pode ter na vida.

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Bernardo, Leandro, Falcão, eu, Bacic e Rafael. Felizes pra caralho!

Durante a primeira semana, desenvolvemos um diálogo que fortaleceu não somente nossas ideias de “Como ser um estúdio de design nesse Brasilzão?”, mas também mostrou como estúdios de design de realidades tão distantes, bebem das mesmas fontes e refletem sobre mesmos dilemas: qual o papel do designer na sociedade, na economia e no desenvolvimento humano? Como ultrapassar as barreiras e limitações? Como se adaptar as novas linguagens e aos novos cenários que surgem mais a frente? Onde somos peça chave e determinante no processo de transformação humana, empresarial ou política? De alguma forma, o Firmorama e seu ecossistema responde, ou apresenta uma boa resposta, a essas perguntas.

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Na segunda semana, todos voltaram às suas rotinas, mas eu continuei viajando. Aqui começou minha experiência pessoal. O ambiente já me era familiar, mas de alguma forma eu sentia que tudo era novo pra mim. Ver a rotina de trabalho da equipe me mostrou a importância do foco e dispersão. Conheci alguns projetos em evolução e vi um pouco de como o fluxo de trabalho se desenvolve entre eles. Esse espaço que eu estava imerso, mesmo que não participativo, era de alguma forma semelhante a outros ambientes de trabalho que eu já tinha vivido, mas diferente.

Era diferente porque tinha cheiro de palo santo. Tinha um cara que alugava um espaço dentro só para compartilhar seu dia-a-dia com aquela equipe, e por sinal, era um dos ilustradores mais fodas que conheci, o João Lavieri. Diferente porque cada indivíduo ali tinha sua individualidade respaldada, respeitada, admirada. Há uma compreensão do todo, pelas suas partes. Estranho explicar isso, mas fazia sentido tudo ali. O chão de grama artificial, as madeiras, as lâmpadas suspensas, o cheiro de canela no banheiro, as bikes estacionadas no corredor. Quando tudo parecia em paz, alguém puxava um café e rolava um papo de estourar miolos e, de repente, paz de novo. Foi nesse espaço que decidi experimentar mais uma vez na Alfabomb Letreria, um sistema de tipografia que criei a partir de stencils.

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Aplicando a Alfabomb Letreria com Glauber.
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Aplicação da Alfabomb Letreria no Bar Lampejo!

A Alfabomb foi criada durante o projeto do Madá Food Park, em Recife. No processo de pintura de um mural, eu me vi no dilema de ter que cortar letra por letra para compor frases que, às vezes, me surgiam durante a pintura. Por isso, decidi pensar em como eu poderia ter a liberdade de compor frases e texturas tipográficas, sem a necessidade de ter as letras pre-cortadas anteriormente. Esses stencils me permitiam compor as letras que precisava, com as dimensões que eu queria. Você pode baixar o kit antigo, enquanto o novo está sendo preparado.

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A ideia surgiu com 6 símbolos, mas hoje já conseguimos realizar com apenas 4 e o uso de fita crepe para ajustes. Você pode baixar esse kit antigo, enquanto estamos preparando o novo.

Escolhemos dois espaços para compor palavras e trazer uma simbologia para o lugar. O primeiro, foi o Bar Lampejo, um cantinho recém aberto na cidade, inteiramente montado e desenhado pelos seus criadores, um deles sendo designer lá na Firma. Esse espaço nos abraçou em quase todas as noites de Jaraguá, onde a gente encontrou pessoas que pareciam amigos de tempos antigos. De alguma forma, aquele espaço era o que mais conectava a gente com as nossas origens e decidi trazer algo dos sertões nordestinos: Virgulino Lampião. O outro espaço era um coworking com uma estrutura incrível, chamado Coolworking, onde compomos uma palavra que resumia o espaço: Coolnectivo.

Ir à Jaraguá do Sul representou muito pra mim. Mais do que conhecer uma parte do país que eu ainda desconhecia, foi notar que, independente de onde você está, o que importa é com quem você se conecta. E essa foi pra mim a grande palavra dessa trip: conexão. Conectar-se comigo mesmo, conexão com o novo, conexão com gente boa, conexão com uma cultura nova, conectar e absorver. Agora estamos todos aqui na Parahyba, aguardando vossas altezas do mundo todo, pra gente mostrar um pedaço dessa terra, dos nossos estúdios de design e de como a gente se parece tanto, sendo tão diferente.

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