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“ 2027 vem aí, você já preparou seu arpão?”

Caio pergunta a Jéssica na maior normalidade do mundo, enquanto senta na mesa, 40 minutos atrasado, sinaliza para o garçom pedindo um copo e come uma das batatas fritas que acabaram de chegar. Caio é uma pessoa estranha. Me pergunto por que andamos com ele.

Eu levanto os ombros e pergunto por que precisaríamos um arpão em 2027. Me lembro que estou falando com Caio e imediatamente me arrependo de ter perguntado.

“Porque em 2026, por causa do derretimento total das geleiras que ainda restam nesse mundo, um tsunami vai atingir a costa brasileira e estimam que no final de 2027, tipo essa água toda chegará em Brasília, trazendo além de rejeitos, dor, sofrimento, e pedaços de casas mineiras e cariocas, tubarões.” Caio responde enquanto come mais uma batata frita. Eu tento mudar de assunto e menciono algo sobre os atentados de Paris de semana passada, mas Jéssica passa por cima do meu senso de empatia com o cidadão europeu e pergunta quem havia contado isso para ele.

“Eu li no Facebook” Diz Caio enquanto enche apenas o seu copo de cerveja, mesmo vendo que os nossos copos estavam quase perto do fim. Jéssica leva as mãos a boca, em espanto, como se a fonte da informação de Caio atribuísse a total veracidade a sua afirmação idiota. Eu encho o meu copo e o de Jéssica, enquanto jogo um olhar condescendente a Caio, para ver se ele toca o quão egoísta e estúpido ele acabou de ser. Me pergunto se esse papo tem a ver com as páginas de Preparação que ele anda curtindo ultimamente.

“Relaxa, ele tá sendo exagerado, nenhum tsunami vai atingir o Brasil, e muito menos chegar em Brasília.” Eu tento acalmar a garota, que parece genuinamente apavorada. Caio levanta os ombros e assegura a ela de que é verdade e que emprestaria o arpão apenas para ela. Me pergunto se ele realmente comprou um arpão.

Eu tento novamente mudar o foco da conversa, dessa vez para a tragédia de Minas Gerais, porque desde semana passada as pessoas vem me chamando de hipócrita e que devo dar atenção igual a ambas as tragédias. Mas sou interrompido novamente pela tragédia dos tubarões em um possível Waterworld brasiliense. Caio assegura de que os cientistas afirmaram isso essa semana mas que a mídia não divulga para não criar alarde. Eu então desisto de ser rabugento por um minuto e entro na brincadeira.

“Provavelmente porque não conseguiram patrocínio das empresas de arpão.” Jéssica ri da minha piada. Caio fica ofendido.

“Ah, qual é, Caio? Você provavelmente leu só a manchete dessa notícia. Dentro devia tá escrito que isso era uma possibilidade remota e que não precisamos nos preocupar.”

“Então você acha que eu compartilho as coisas sem ler antes, é isso?” Pergunta Caio, em um tom levemente desafiador.

“A não ser que esteja escrito ‘ bla bla bla, e você não vai acreditar o que aconteceu em seguida…” Jéssica ri de novo, eu também, nós compartilhamos um momento. Caio põe suas cartas em modo de ataque.

“ E você, espertalhão? Quantas notícias você compartilhou hoje, hein?”

Eu tento me lembrar, mas ele é mais rápido.

“Duas! Uma sobre outra barragem que está prestes a rachar em Minas. E uma falando que o Estado Islâmico está planejando fazer ataques no Brasil.”

“Tá e dai? Quem disse que eu tenho que escolher uma tragédia só?”

“E daí que a primeira manchete falava que uma das paredes da barragem tinha acabado de cair, mas quando eu abri para ler a notícia, tinha uma errata enorme pedindo desculpas e afirmando que a informação não tinha sido coletada corretamente.”

“Ah, eu…”

“ E a segunda manchete dizia que era do G1, mas é aquele tipo de post que diz que é do G1 só pra dar uma credibilidade, mas que, quando você abre você vê que não é do G1 e é na verdade uma reportagem de dois parágrafos em um blog daqueles cheio de erro de português e que chamam a Globo de mídia golpista.”

Eu levanto o dedo para rebater, mas me lembro que eu realmente compartilhei sem ler, mas é só porque eu estava na sala de espera do dentista e a recepcionista chamou meu nome bem na hora que eu li a manchete. Como era uma história que parecia mentira, decidi não gastar meu latim. Sirvo cerveja para todo mundo e me pergunto onde será que eu compro um arpão.