Contingente Especial

Todos os sistemas são feitos à imagem e semelhança do ser humano. Por isso, lacunas, omissões, vazios ou incongruências fazem parte do «modus faciendi» da sua elaboração.

Se existissem sistemas perfeitos, talvez não houvesse corrupção. Mas também não existiam todas as qualidades que se consideram nobres: a bondade, a compaixão, a solidariedade. Nesses casos não existiria espaço suficiente para as demonstrar. Sempre se beneficiariam os fortes e se penalizariam os fracos, segundo um único critério que, como todos os critérios únicos, são sempre injustos para alguém: no caso da capacidade financeira, para os pobres que não têm culpa de serem pobres; no caso da inteligência, para os estúpidos que não têm culpa de serem estúpidos.

Por exemplo, no ensino há pessoas que, por questões intrinsecamente humanas, resolvem contornar o problema àquilo a que estão condenados pela «lei académica»: estudar a matéria do curso. Atenuantes a uma espécie de lei darwinista, insensível à miséria humana.

Avessos à noção de terem de ser classificados de forma totalmente imparcial, invocam contingências especiais para a sua falta de estudo (umas mais válidas do que outras): constituição de família, empregos paralelos, actividades académicas, certas doenças psiquiátricas, ocupações inventadas ou, simplesmente, um carácter excessivo da sua condição procrastinadora.

A verdade é que todas estas contingências não são necessariamente exclusivas de certos seres humanos. Provavelmente, são inerentes à condição humana. Por outras palavras, há sempre um contingente especial para quando a coisa dá para o torto.

Por isso é que há na corruptibilidade dos sistemas aparentemente perfeitos, algo de profundamente libertador e humano. No caso do ensino, a de um aluno não se julgar somente em função da nota que lhe aparece na pauta.

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