A chuva cênica (sobrepondo à chuva verdadeira, como que a sublinhando, atuando como um marcador fluorescente de texto) apagava a chama olímpica sob uma muito bem executada “Pelo tempo que durar”, da delicada, leve e precisa Marisa Monte: mexeu comigo — conosco, aposto. JÉ ERA DOMINGO, NÉ, aí ainda toda essa função de despedida e daquele tipo de despedida que não se vê no outro dia, na outra semana, mês, ano, despedida daquilo que não se repetirá. 
Já se acumulava nisso o belo poema “Saudade”, do Arnaldo Antunes (aliás, como não lembrar “Rio, o ir”), dizendo “não tenho saudades/ do que vivi/ tenho saudades do que viveram/ aqueles com quem convivi”: a gente se emociona com gente que a gente nem conhece por causa da junção de músicas e imagens, mesmo quando elas são feitas da maneira protocolarmente brega das formaturas, que se dirá de uma festa tão bem preparada quanto a de ontem? Talvez eu preferisse àquilo estar absorto num outro objetivo, como o pessoal que se puxou para exibir a bandeira do Corinthians quando descobriram a câmera filmando o Nuzman (não sei detalhes da sua vida política, mas que alegria tive por esse cidadão — lembro do “2004, Rio candidato”, que soava quase como piada, e ali ele, tremendo, transformava o papel branco num objeto outro saído de sua mão: uma luva, e dava com ela um educado tapa no mundo inteiro em nome do Brasil, inclusive nos brasileiros), mas entrei (melhor, submergi, sem necessariamente querer) no clima da despedida, coisa típica de quem assiste pela TV e não se distrai com o que escapa à exibição, a festa em si, com as pessoas à volta, com o cheiro das coisas — o telespectador interage com a experiência paradoxalmente mais distante, mas acessando a mais detalhes, focando-se no assunto em si quando quem está lá se envolve com outros objetivos alheios; aí o telespectador sente essa saudade vazia e espaçosa (como um balão) de quem estava de fora da festa, mas sabia tudo da festa. Soma-se ao já citado domingo, à já citada mágica melancólica das músicas e imagens em câmera lenta revisitadas o fato (fato de fato, incontornável, fatídico) de eu estar com a idade avançada para padrões olímpicos (nas minhas costumeiras construções imaginárias de medalhista de ouro, eu já tenho de assumir perfis de atletas fenomenalmente longevos, que batem recordes depois dos 30, ou apelar para versões mais jovens minhas para a fantasia se estruturar numa unidade ficcional minimamente lógica) e em Tóquio talvez não haja mais recursos para eu imaginar-me lá, imbatível. Quando ficamos melancólicos, especialmente se o motivo for o tempo por si só, sua função por si só, distinguimo-nos como indubitavelmente humanos (também o fascínio do esporte se dá por restringir-se à nossa espécie, dado qualquer gato doméstico sobrepujar o arranque e velocidade de Bolt).

O tempo. Não dos centésimos de segundos hiperfocados e repetidos das competições, mas a misteriosa embora muito clara dimensão ubíqua que nos consome, mas que nos permite (intransitivamente mesmo), antes de tudo. Antes dos deuses olímpicos, havia Cronos e suspeito que, a despeito da cilada de Zeus, ele segue comendo seus filhos, um a um, paciente e meticulosamente, até hoje — e, claro, sempre. Mas somos seus filhos. Como disse, permite intransitivamente. Esses nomes, essas juventudes, cada um tem um coeficiente de duração. Dependendo de quanto ajustarmos o zoom da linha de tempo da História, sobram somente Bolt e Phelps, e mesmo seus nomes também perecerão na memória da nossa espécie — e onde parará essa memória?
Eu tenho um projeto de quadro que sempre procrastino, que consistem em representar as formas de vida desde o seu surgimento na Terra, partindo do fundo da perspectiva da imagem até que no primeiro plano um toque de mãos seja maior do que todo o resto: o momento maior do que toda a história, através da relativização da posição. São questões fundamentais e, portanto, óbvias de se inquirirem, mas, também portanto, as que movem nossos maiores esforços de reflexão. Qualquer ciclo que se manifeste à nossa frente nos força a lembrá-las. O que aconteceu nesses últimos quatro anos? O que acontecerá nos próximos quatro? E quatro e quatro são 8, 8 e 8, 16, mais 8, 24 — chego assim a 92, a primeira Olimpíada que vi mesmo (em 88 eu nem alfabetizado era e só lembro do nome Ben Johnson e uma reprise da então impressionante lágrima do Misha). Naquela de Barcelona, da vinheta da Globo formando o Discóbolo com as bandeiras das nações (que já mudaram), o Dream Team (nada parece merecer ser chamado Time dos Sonhos depois de unirem de maneira inédita Jordan, Johnson e Bird) me marcou para a vida, mas, a rigor matemático, eu devo ter visto deles uma matéria de 2 minutos no JN, feita provavelmente pelo Uchoa, na época em que eu tinha a percepção crítica suficientemente ingênua para achá-lo um poeta. Era tanta a ingenuidade que lembro de uma outra matéria em que o Aurélio Miguel dizia que sua avó era de Barcelona e ele queria dedicar a desejada segunda medalha de ouro a ela, donde eu concluí que seguramente o adversário lhe cederia a vitória em vista da homenagem — vejam só a cabeça de uma criança! Falando em judô, a gente reviu o O-soto-gari do Rogério Sampaio umas dezesseis vezes, porque, vejam só, foram 3 medalhinhas (mas medalhaças) para o Brasil. Giovane, Tande, Carlão, Paulão, Maurício e Marcelo Negrão eram uma amostragem de Beatles. Na então experiência de nem uma década de vida, claro que aquilo já era suficiente para me marcar. Nossa casca endurece e hoje uma porção cética minha diz que o doping é como a sonegação os impostos, a questão é quem esconde melhor, relativizando esses milagres físicos. E o olhar crítico lançado a tudo não pouparia os jogos, que traz uma porção de questões que envolvem o comportamento gentil com ele e nele, esquecido nos outros quatro anos. Mas percebi, com a mesma experiência pela televisão de décadas atrás, que a casca madura inda é penetrável: especialmente as histórias de derrota ficaram na minha cabeça: Nacif Elias indignado até chorar e até seu técnico carrancudo chorar; Dafne Schippers descontando nas sapatilhas a perda de um sonho, o não alcance de uma meta que a moveu por anos, pela vida, talvez; até quando o Brasil sorriu com a merecida redenção do Hypólito me sobrou espaço para pensar em como Kenso Shirai, favorito, treinadíssimo, deve ter se decepcionado — ele foi o Diego de 2008 da vez. Foram muitas rotinas árduas desperdiçadas por deslizes mínimos. Foram muitos atletas que se machucaram às vésperas dos jogos. Imagine todo quarto lugar. Evidentemente a segunda-feira me arrastou de volta à rotina e a melancolia com o tempo que em mim jazia adormecida e despertou com força ontem volta a se comportar num índice tolerável. Estejamos preparados para em 2020 o motivo da melancolia não ser o deslocamento num mundo administrado por robôs ou a distância daqueles desenhos animados com o nosso presente.