O ano velho
A maioria das ofensas (ou talvez todas) tem seu grau de relatividade, tanto na caracterização da ofensa em si quanto no quanto somos também aquilo que chamamos, nem que esta às vezes pequena fração se reserve a um default-pecado_original, aos predicados humanos potenciais (amanhã ou ontem nunca se sabe); talvez a ofensa que tenha um dos graus mais elevados desta relatividade é “velho” e suas adjacências, já que se considerarmos esta convencionada quarta dimensão, o tempo, tal ofensa compulsoriamente se voltará a nós — a menos que se tenha a coragem ou o fado de se morrer jovem — e talvez nem isso impeça, pois o mesmo tempo faz com que sempre se faça possível ser velho para alguma coisa, ainda que a cultura nos encoraje desprezar esta aparentemente incontornável dimensão, o que gera grandes e engraçados resultados.
Não errarei com 2014 de chamá-lo velho. O ano pode se fazer num dia ainda, parar a edição de retrospectiva. O voto da virada é o exercício máximo da esperança em amanhãs, e não menos umas férias para os hojes.
Resumindo: embora as festas e a diluição de responsabilidades vs. a correria para não deixar pendências façam das últimas semanas do ano exceções, que nos iludem um limite entre um ano e outro, a coisa passa é no dia e dia e, claro, nos seus tijolos e tijolos dos tijolos.
Tomando felicidade como cumprir (inclui descobrir) cada um o seu papel, feliz restante de 2014 e que nisso comece uma felicidade (nos termos ditos há pouco) contínua, dia a dia.
(Este texto é uma adaptação ao escrito originalmente em 30/12/2011, no qual eu falava sobre o então mítico porvir de 2012 — um parágrafo bem específico foi suprimido em função disso.)