Cabelo Ruim

Acabei de fazer um ~alisamento caseiro~ no meu cabelo. Não gosto dele como ele é. Nasci com o cabelo bem liso e foi assim até a adolescência, aí começou a cachear, principalmente na parte da frente. Bem na adolescência, né hehehe é a época que a gente começa a querer ser bonito. Quen quen queeeen
Não me lembro de notar que tinha cabelo até os 13 anos. Eu nem ligava, afinal, não servia pra nada ahhahaha Fato é que hoje ele é muito estranho, na frente é bem enrolado, quase crespo, aí vai suavizando nas partes de trás, acima das orelhas. Tem umas áreas onde ele ainda é liso e fino, por isso fica esquisito se eu deixar ~como a natureza fez~. Já tentei de tudo. Não dá.
Às vezes me sinto burro em me importar tanto com isso. Como dizia aquele poema que eu li numa aula de português: "É a vaidade, Fábio". Um dia eu nem vou ter mais cabelo e vou morrer de saudade de quando ele era bizarro e revoltado, mas tava lá protegendo a careca, sua função principal. Mas simplesmente não consigo. Sou vaidoso a ponto de ter vergonha disso. A vida azeda quando alguém olha pra mim e pergunta se eu faço algo no cabelo.
Os homens héteros tem muito preconceito com outros homens héteros que fazem coisas nos cabelos. Esse fato pode ser o grande causador da minha vergonha. Sou hétero — e isso definitivamente não tem (ou não deveria ter) absolutamente nada a ver com o assunto — mas sabe como é, né. Imagina o tamanho da minha vergonha se um amigo me visse saindo de uma loja de cosméticos com um tubo de ~creme alisante~ nas mãos. "Comprei essa parada aqui pra minha mãe hehehe." Puta que pariu! Mas por que? Se você penteia seus cabelos já está "alterando a forma original", ou não? Se você faz a barba, corta as unhas, faz musculação, você também não está interferindo no estado natural do corpo? Até que ponto é aceitável interferir no próprio visual?
O CHHAC (Clube dos Homens Héteros que Alisam o Cabelo). Acabei de fundar. Só tem eu nele, até porque não faria divulgação dele pra conseguir membros, nem de brincadeira. A vergonha não permite hahaha Que bobagem… É um conflito extremamente solitário estar nesse clube.
Outro movimento relacionado ao tema que ganhou força nos últimos tempos é o chamado "Transição Capilar", onde pessoas (na maior parte mulheres) resolvem parar de usar produtos químicos até que seus cabelos fiquem totalmente naturais. Tem muita coisa envolvida nesse fenômeno, não se trata apenas de estética. É uma questão de aceitação, de senso de pertencimento a um determinado grupo cultural, étnico, que engloba vários aspectos e valores históricos pertencentes a esses grupos. É algo que começa em um nível extremamente interno de uma pessoa e termina nos fios de cabelo. É bom pra quem consegue e se sente feliz e melhor desta maneira. Eu não compartilho esse sentimento, não me sinto pertencente a grupos ou movimentos sociais, não tenho ligação alguma com meu povo, nem sequer tenho povo. Meu cabelo atesta minha descendência negra, minha pele revela minha descendência europeia (Portugal?), meus olhos me dão um quê de asiático, minha falta de pelos no corpo pode ser traço dos meus ancestrais indígenas. V-I-R-A-L-A-T-A. Pelo que conheço da história das famílias de onde vim, tenho, sim, todos esses povos aqui no sangue. Talvez por isso eu não me atraia por ideias que propõem ligação a grupos ou lugares. Não me sinto necessariamente orgulhoso por ter nascido nesta cidade, neste estado ou neste país. Simplesmente nasci aqui, por obra do acaso. Não acho que isso seja motivo de orgulho, mas isso é assunto pra outro post.
Acabei de voltar do espelho e notei que o produto não funcionou como eu esperava hahahah Vou repetir o processo quando tiver um tempo livre. Hoje não se diz mais "cabelo ruim", o que também faz parte desses fenômenos sociais que valorizam as diferenças. Eu jamais chamaria o cabelo de alguém de ruim. Mas o meu, sendo meu, me dando esse trabalhão e me fazendo perder tanto tempo, dinheiro e me deixando puto toda hora, eu posso chamar de ruim? Posso. Meu cabelo é ruim pra mim.
Fim.