A curiosa arte de elogiar um homem sem qualidades

João Luis Jr.
Aug 23, 2019 · 6 min read
Se soubesse que era isso que o Brasil queria eu teria lançado Ciro Bottini candidato

De todas as construções da lógica bolsonarista que deixam o cidadão normal fascinado e confuso, indo desde pessoas adultas usando “chola mais” em discussões sérias até a crença num comunismo que é ao mesmo tempo onipresente o bastante para dominar institutos de pesquisa, conglomerados midiáticos e governos ao redor do mundo, mas frágil o bastante para ser contido pelos esforços de um militar de baixa patente e os tuites confusos de seus filhos, talvez uma das mais misteriosas seja o famoso “mas quando o PT fazia você não reclamava”.

Primeiro pela razão óbvia: se eu acuso o governo Bolsonaro de, por exemplo, nepotismo, e você responde que quando o governo PT era nepotista eu não reclamava, você está, não tão implicitamente assim, admitindo que sim, o governo Bolsonaro pratica nepotismo. E só isso, quando estamos diante de um candidato que foi eleito com a promessa de “mudar isso tudo que tá aí” já seria o bastante para uma pessoa de bom senso ao menos dar uma franzida na testa, uma respirada funda, pedir um copo de água com gás e um limãozinho espremido.

Enquanto isso tem pai aí que nem pensão paga

Mas tão curioso quanto a facilidade que alguns defensores do atual governo tem pra admitir que ele comete o mesmo tipo de erro de que acusam os governos anteriores, é o tipo de conclusão que se pode tirar quando começa a ser colocado na mesa esse tipo de argumento.

Afinal, a principal promessa do governo atual era apresentar uma vasta superioridade moral sobre a gestão de centro-esquerda realizada pelo governo lulo-dilmista. Se o PT roubava, Bolsonaro jamais roubaria. Se o PT aparelhava o estado, Bolsonaro jamais aparelharia. Se o PT trocava favores, Bolsonaro jamais trocaria. Se Dilma quando perdia no Fifa reclamava do joystick, Bolsonaro reconheceria a derrota com humildade. Em suma, teríamos um governo de elevado padrão ético, formado por quadros absolutamente técnicos, que realizaria uma gestão imparcial, que não beneficiaria ninguém além do povo brasileiro e sempre escolheria um time do mesmo nível que o seu, nada de você pegar o Vasco e eles a Juventus.

Infelizmente ele não gosta de fazer nada obrigado

Mas bem, em poucos meses ficou claro que isso não é real. Seja pelo já citado nepotismo, pela priorização dos quadros políticos e demissão de técnicos discordantes, pelas suspeitas de corrupção em vários níveis ou mesmo pelas atitudes mesquinhas do tipo “você me multou, vou tirar seu emprego” tomadas pelo presidente, os primeiros meses de governo conseguiram rapidamente derrubar qualquer tipo de pedestal moral em que um observador pudesse posicionar o atual governo.

E diante disso o pensamento bolsonarista acaba se vendo diante de duas rotas. Uma delas, adotada por uma grande parcela dos eleitores, é a de negar a realidade de qualquer acusação e creditar toda informação negativa sobre o governo à essa vasta conspiração comunista que envolveria desde os professores universitários até o presidente francês, passando pela NASA, a Madonna e a Folha de São Paulo.

A outra rota, como eu já mencionei, quase sempre é a de reconhecer que sim, “alguns erros estão sendo cometidos”, mas vamos lembrar que bem, durante o governo PT isso era bem pior ou pelo menos já acontecia.

ISSO A MÍDIA COMUNISTA NÃO MOSTRA

E é exatamente quando se escolhe a opção b que uma das principais e mais óbvias contradições do bolsonarismo atual vem à tona: afinal, se você defendia um candidato por conta de uma suposta superioridade moral e a realidade provou que essa superioridade moral não existe, por que você continua defendendo esse candidato?

Pois se você forçar um pouco a memória, o discurso de boa parte dos defensores do atual presidente, durante o período da campanha, era um grande porém. Ele é meio tosco, porém é honesto. Ele é meio preconceituoso, porém vai resolver a economia. Ele não tem currículo porém também não tem vícios da velha política. Então quando começa a ficar cada vez mais óbvio que ele não é honesto, não vai resolver a economia e tem sim todos os vícios da velha política, o que sobra?

Ou, recolocando a pergunta: se você defendia um homem apesar de seus defeitos, por acreditar em suas qualidades, por que você continuaria defendendo esse homem depois que ele mostrou que nenhuma dessas qualidades eram reais?

Bem, talvez porque o que você sempre gostou nele eram mesmo os defeitos.

Quem nunca bebeu com uma pessoa num dia e tava brigando nas redes sociais com ela no outro?

Porque se manter hoje apoiando o atual governo, um grupo que conseguiu em 8 meses desafiar o protocolo, o bom senso, a constituição, a natureza, a ciência e até mesmo a realidade, sem gerar nenhum tipo de compensação proporcional — ou mesmo qualquer tipo de compensação visível — para o país, exige obviamente um tipo de paixão e dedicação que, se não pode ser mais justificado pela confiança nas virtudes do governo, só pode ser entendido como uma identificação com os seus pecados.

Afinal, se você tem, por exemplo, um candidato “um pouco racista” mas “muito honesto” e fica claro que ele não é honesto, a única razão para continuar apoiando esse candidato é a sua vontade de ver no poder alguém “um pouco racista”. Se você tem um candidato “não tão competente” mas que “não é feito o PT”, e você continua ao lado dele mesmo quando admite que ele está fazendo várias das coisas que você criticava no PT, tudo que você está fazendo é apoiar a permanência de um incompetente no poder.

Você sabe que não tá bacana quando até o Alexandre Frota considera que virou palhaçada e é melhor sair

Isso porque nada na nossa constituição obriga um cidadão a sustentar seu voto até a próxima eleição. Não existe tempo mínimo para críticas, não existe carência para o arrependimento, você pode renegar seu candidato no instante seguinte ao pilili da urna eletrônica, se descobrir alguma coisa que te leve a perceber que tomou uma decisão equivocada. As pessoas no Facebook dizem que nunca vão te perdoar, os jovens no Twitter discursam diariamente sobre como agredir fascistas, mas 98% disso é pura performance e no atual momento político as pessoas estão dispostas a manifestar admiração até pelo Alexandre Frota por ele ter abandonado o PSL e se filiado ao PSDB.

Existem poucos barcos mais fáceis de abandonar do que um que está visivelmente afundando enquanto recebe críticas de todas as embarcações ao lado e o capitão decidiu que a tripulação vai se aposentar 10 anos mais tarde. Então se alguém, a essa altura do campeonato, ainda consegue não apenas não condenar como defender ativamente as posturas do governo, ou ela, como já falamos antes, vive num estado muito grave de dissociação da realidade ou acabou, seja por excesso de apego, fanatismo anti-petista ou questões morais bem mais graves, acabou se tornando tão ruim quanto um dos piores governos da nossa história.

João Luis Jr.

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quando eu tinha 10 anos uma professora disse que eu escrevia bem. até hoje estamos lidando com as consequências desse mal-entendido

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