Não, você não é o protagonista dessa história

João Luis Jr.
Sep 6, 2018 · 6 min read
Apesar de ser o modelo mais aceito pela ciência, para várias pessoas o heliocentrismo ainda não pegou

Assim como grande parte dos jogos de tiro e a maioria dos livros de detetive, a vida é uma aventura que experimentamos em primeira pessoa. Por mais que você conviva com outros, dialogue com outros, acompanhe narrativas de outros, todo input de informação que você recebe chega através de, bem, de você, e mesmo as informações externas são filtradas pela sua própria capacidade de percepção e distorcidas pelas suas características pessoais — ex: o mundo não fica todo borrado quando as coisas atingem mais de um metro e meio de distância, eu que sou míope.

Ao mesmo tempo a nossa mente é, tanto evolutiva quanto socialmente, treinada para formar, com essas informações que recebemos de fora, padrões e narrativas. Padrões porque na natureza a capacidade de reconhecer padrões e rapidamente tomar decisões baseadas neles é uma vantagem competitiva que pode fazer a diferença entre a vida e a morte; e narrativas porque num universo caótico, complexo e repleto de muito mais perguntas do que respostas, como é o caso do nosso, a capacidade de tentar, ainda que forçadamente, ordenar tudo numa narrativa coesa, pode ser a diferença entre conforto e desespero, sanidade ou passar os dias olhando para os céus e gritando “POR QUE???” — ex: a vida não é uma série de eventos aleatórios sem sentido mas sim segue um plano superior definido por uma entidade onipotente porém misteriosa e talvez barbuda.

E o resultado mais óbvio da soma desses fatores é a ideia, mais ou menos figurativa mas também mais ou menos literal, de que cada um de nós é o protagonista da sua própria narrativa, uma história onde você é o personagem principal, seus amigos e familiares são coadjuvantes, aquela pessoa atraente é o interesse romântico e qualquer um que se coloque entre você e seus interesses é naturalmente um antagonista.

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Na vida real não existem NPC’s, então as pessoas seguem a vida delas mesmo sem você lá

Mas ainda que essa visão apresente algumas vantagens práticas e até motivacionais — é realmente bastante positivo você se considerar “o protagonista da sua própria vida” se isso encampa você aceitar que precisa tomar as rédeas das suas decisões e arcar com as consequências dos seus erros, por exemplo — ela acaba se tornando complicada pelo fato de que, na vida real, ninguém é realmente protagonista e ao mesmo tempo ninguém é realmente coadjuvante, figurante ou antagonista de ninguém.

Isso porque numa narrativa convencional, quando você define um protagonista, todas as demais ações são direta ou indiretamente relacionadas ou motivadas por ele em algum grau. Num filme sobre o personagem x, por exemplo, os coadjuvantes só vão ser mostrados quando estiverem tomando atitudes influenciadas pelo ou que influenciem o personagem x, o interesse romântico vai ter seu futuro e suas ações diretamente ligados ao futuro e ações do personagem x e o antagonista vai basicamente existir para, bem, antagonizar o personagem x.

Ou seja, por mais que você seja o “protagonista” da sua vida e o Batman seja o protagonista do gibi do Batman, ao contrário dos personagens secundários dele, que foram criados em torno dele, vivem em torno dele e só existem para influenciar ou serem influenciados por ele, na sua vida as pessoas continuam existindo quando você vai embora, tomam atitudes que não possuem ligação nenhuma com você e tem vontades e anseios nos quais você não tem influência nenhuma.

Um planeta inteiro e se muito umas 2 pessoas tão levando você em consideração em alguma decisão no dia de hoje

E ainda que isso possa parecer uma conclusão ridiculamente óbvia, a simples noção de que não somos o centro da narrativa e várias decisões que podem nos afetar e eventos que podem nos impactar acontecem sem que sejamos sequer considerados pelas pessoas envolvidas parece ser totalmente alienígena para uma boa parte das pessoas ao nosso redor — ou até mesmo para nós.

Promoções no trabalho são dadas a outras pessoas não porque o chefe quer nos prejudicar, mas sim porque existem outras pessoas mais qualificadas. Primeiros encontros podem não se transformar em segundos encontros sem que isso tenha nenhuma ligação com a avaliação que a pessoa fez de nós mas sim com outras situações da vida pessoal dela. O caixa eletrônico está sem notas de 50 reais não porque a ganância do usuário anterior fez com que ele sacasse todas, mas sim por uma grande cadeia de eventos que começou com um funcionário gripado na Casa da Moeda e terminou com uma entrega de 1000 cédulas a menos num banco em São Paulo.

Mas numa narrativa em que você se considera o centro, e onde acredita que todas as decisões são pensadas levando você em consideração e todas as ações são tomadas tendo você como objetivo central, a leitura é totalmente diferente. Se a sorveteria não tem o sabor que você quer, sendo você a única pessoa importante no mundo, a caixa automaticamente se torna uma antagonista, pois está se opondo ao seu desejo. Se o seu amigo não quer sair no dia em que você prefere, não existindo nenhum objetivo para ele na vida além de ser seu amigo, ele automaticamente precisa estar chateado com você por algum motivo para negar a sua vontade.

Enquanto no mundo real situações que negam a nossa vontade são uma irritante mas natural parte da condição humana, num mundo em que você é o protagonista elas se tornam ou uma manifestação de antagonismo ou no mínimo algo que exige algum tipo de explicação. Afinal, se a Selminha da contabilidade terminou com o Oswaldo da segurança isso pode não ter absolutamente nada a ver com o Oswaldo, ela pode só ter entendido que precisa se dedicar mais ao trabalho, ter descoberto que na verdade gosta de um ex, mas se na edição número 567 do Super-Homem ele e Lois Lane terminam o noivado você pode ter certeza que ou é uma maquinação do Lex Luthor ou tem alguma relação direta com a dicotomia Super-Homem/Clark Kent.

Quando você guarda tanto rancor que te convidam pra aparecer um episódio de reality sobre acumuladores

Por isso é tão importante lembrar de tempos em tempos que ainda que sejamos os personagens principais na nossa narrativa pessoal nunca sabemos exatamente que papel possuímos na narrativa alheia, seja para mais, seja para menos. A pessoa que você considera como seu inimigo mortal pode nem mesmo saber a grafia certa do seu nome, o seu coadjuvante pode te considerar um figurante, o seu interesse romântico pode ter vários outros interesses que não só não são românticos como não incluem você.

E isso não quer dizer que a não-intencionalidade mude o peso de qualquer ato contra você ou reduza a sua culpa em erros que você comete — um tijolo que caiu no seu pé sem querer não dói menos do que um tijolo que derrubaram no seu pé de propósito, e o mesmo vale para o pé de qualquer outra pessoa — mas pode ajudar a mudar a forma como você lida com esses tijolos. Até mesmo se você for o tipo de pessoa que não diferencia um tijolo que caiu de um tijolo que foi derrubado.

Além disso, de uma forma ou de outra, você sempre aprende algo ao reconhecer que não é o centro do mundo. Seja com a sensação de que a vida é mais leve se nem todo projeto seu que dá errado é sinal de que você é um fracasso ou todo bife que o restaurante serviu no ponto errado é um ataque pessoal feito pelo garçom, seja com a compreensão de que as outras pessoas tem cada uma sua história, sua narrativa, e você nunca consegue mensurar exatamente que tipo de dano uma ação sua pode causar na trama de outra pessoa.

Diante disso perceber que o mundo é muito maior do que nós e lembrar que somos apenas uma partezinha ridiculamente pequena dele é menos uma razão para ficar triste do que uma razão para tentar ser mais compreensivo com todas as outras partezinhas ridiculamente pequenas que cercam a gente. Afinal, acompanhar a história em primeira pessoa não quer dizer que a gente seja o centro de todas as histórias e, da mesma maneira que a gente, todas as outras pessoas estão só tentando escrever a melhor história possível pra elas mesmas.

João Luis Jr.

quando eu tinha 10 anos uma professora disse que eu escrevia bem. até hoje estamos lidando com as consequências desse mal-entendido

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