5 péssimas linhas de raciocínio que seu cérebro vai querer abordar após um término

João Luis Jr.
Mar 2 · 6 min read

Tudo foi uma mentira: daí que a pessoa que no sábado disse que te amava na quinta disse que não dava mais, a pessoa que em janeiro falou que era pra sempre em fevereiro concluiu que não aguentava nem mais um episódio de Rupaul ao seu lado, a pessoa com quem você planejava uma lua de mel te fez cancelar as passagens já compradas pro carnaval. Obviamente é um choque, claramente é um baque, com certeza é uma bela de uma dissonância cognitiva e uma racionalização relativamente comum nesse tipo de contexto é a de que “se ela não me ama agora talvez ela nunca tenha me amado de verdade”. Afinal, não faz muito sentido uma pessoa deixar de amar de uma hora pra outra, certo? Se estava tudo bem no sábado, como poderia estar tudo acabado na segunda? Como eu posso acreditar que era de verdade um sentimento que acabou dessa maneira tão brusca???

Bem, fora o fato de que não é porque foi brusco pra você, o terminado, que necessariamente foi brusco para ela, a terminadora, é preciso pensar nas implicações práticas da ideia de uma pessoa passar semanas, meses ou até mesmo anos fingindo que gosta de você. Você é herdeiro de alguma grande fortuna? Você tem um tipo sanguíneo extremamente específico e rins muito saudáveis? Você prejudicou a carreira de um cientista rival cuja filha cresceu nutrindo fantasias significativamente elaboradas de vingança? Se você não se identificar nem ao menos um pouco com nenhuma dessas hipóteses, é mais fácil acreditar que uma pessoa apenas deixou gradualmente de gostar de você do que imaginar que outro ser humano conseguiu passar um ano e meio fingindo que realmente achava engraçadinho quando você falava sobre a cronologia dos X-Men.

Existe outra pessoa: Outra racionalização muito comum após um término é a de que, se aquela pessoa não está mais interessada em você, é porque outra pessoa se tornou o alvo desse interesse. Será ele mais alto? Será ele mais bonito? Será ele mais jovem? Terá ele um problema menos crônico com transpiração ou uma capacidade mais alta de não babar enquanto dorme? Estarei eu usando exemplos muito específicos e tornando esse texto pessoal demais? Todas essas são questões que passam pela cabeça da pessoa que acabou de tomar um pé na bunda.

Mas o principal fato a ser lembrando enquanto você estiver alcoolizado chorando no sofá imaginando ela deitada na cama de um homem que acorda de manhã sem absolutamente nenhum traço da própria saliva no travesseiro é que, no final das contas, isso não importa. Se ela terminou contigo porque se apaixonou por outro cara, se ela terminou contigo porque se apaixonou por outra garota, se ela terminou contigo porque se converteu a um culto vegano onde ela precisa jurar fidelidade a um grande boneco feito de cenoura ralada e molho shoyu e por isso não tem mais espaço pra você na relação, a única parte realmente relacionada a você é o fato de que acabou, fim, com você ela não quer mais ficar. Ainda que, obviamente, nada te impeça de tentar sustentar na sua imaginação a ideia do culto vegano pelo máximo de tempo possível, se isso te ajudar a se sentir melhor.

Eu posso fazer ela voltar: um término não precisa necessariamente representar o final definitivo da história de um casal. Ex-namorados reatam, pessoas que a vida afasta se reencontram, às vezes somos o par certo no momento errado e depois esse momento certo acaba surgindo quando menos se espera. Mas além do fato de que isso representa uma minoria estatística dos relacionamentos — a imensa maioria dos seus ex-namorados vai apenas seguir nessa condição a não ser que você adote o poliamor e volte a namorar simultaneamente com todos eles — é relativamente fácil notar quais términos, ao menos no curto e médio prazo, parecem ser irreversíveis.

Ela disse que está confusa sobre o que sente? Talvez tenha volta. Ele disse que precisa de um tempo? Talvez tenha volta. Ela disse que ainda te ama mas a relação não tá funcionando? Complicado, mas nunca se sabe. Mas se a pessoa parece convicta, se ela apresentou razões práticas muito claras ou se ela já inseriu no término o discurso de “você ainda vai achar alguém que vai te fazer muito feliz”, basicamente repassando você pro destino como se você fosse um Uno Mille 1984, álcool, quarto dono, é preciso reconhecer que você perdeu, amigo. Ela sabe o que quer, ela está decidida e as suas chances de fazer essa pessoa voltar são as mesmas de você convencer um taxista carioca a votar numa Boulos/Pablo Vittar no primeiro turno das próximas eleições.

Eu vou ficar sozinho pra sempre: após qualquer término, principalmente se você já passou de uma certa idade, pode surgir o terror primitivo de que você vá ficar sozinho pra sempre. Afinal, você já tentou várias vezes e não deu certo, já ficou com pessoas parecidas, pessoas diferentes, pessoas que você achava o máximo, pessoas que te achavam o máximo — não necessariamente ao mesmo tempo — já tentou se jogar de cabeça, já tentou manter um pezinho fora da piscina e todas essas experiências sempre acabaram do mesmo jeito, com um término. Será então que o problema é você? Será que você tem algum defeito inerente que te impede de funcionar num casal? Será que você vai ficar sozinho pra sempre?

Além da verdade óbvia de que não é razoável considerar bem-sucedidas apenas relações que duram pra sempre — por esse padrão a única série bem-sucedida da tv mundial seria Law & Order: SVU, por exemplo — é preciso pensar na vida pessoal menos como um meio para um fim específico e mais como uma experiência contínua de aprendizado e crescimento. Esse namoro não durou? Mas você cresceu e foi feliz enquanto estava nele. Essa ficada não virou o que você esperava? Mas pode ter deixado um livro, uma música, uma lembrança. Essa pessoa foi embora pra sempre e você está deitado de cueca no chão frio da sala comendo purê de batata com a mão e ouvindo música triste? Caramba, irmão, complicado pensar no lado bom pra você agora, mas o cantor e compositor Leoni está ao menos recebendo os royalties da execução dessa playlist no Spotify.

E mesmo se nada disso for verdade e você realmente estiver destinado a jamais ter uma relação duradoura, nunca esqueça: se você mora sozinho toda a comida que você deixa na geladeira quando sai ainda vai estar lá quando você voltar. E numa noite de quinta-feira, quando você esqueceu de passar no mercado e tá com sono demais pra esperar o delivery, achar um resto de macarrão na geladeira é mais bonito que qualquer declaração de amor.

Essa é uma boa hora pra assistir o premiado longa metragem “História de um casamento”, do celebrado diretor Noah Baumbach: não, apenas não, sério. Para com isso e vai ver um desenho, não faz isso com você.

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