Pequenos sentimentos mesquinhos recorrentes em momentos de término

João Luis Jr.
Feb 19 · 4 min read

“Quero que você se sinta mal porque eu estou me sentindo mal”: e daí que o seu relacionamento atingiu aquele status que poderia ser descrito pela cultura popular do interior mineiro como “acabou o milho, acabou a pipoca”. Ela disse que não dá mais por uma gama de razões plenamente justificáveis, apresentou todas essas razões de uma maneira extremamente gentil e ainda organizou pra você um intuitivo arquivo PDF com um FAQ onde você pode encontrar respostas rápidas para as principais dúvidas que você teria sobre o término (quando você pesquisa “mas não podemos tentar de novo?” existe uma simpática orientação em itálico remetendo para a página 52 onde está escrito “não, porque eu não tenho tempo e você é muito cansativo”).

E ainda que essa seja a pessoa de quem você mais gostou em sei lá quantos anos — talvez na vida, mas você não quer pensar nisso agora — e ela não tenha feito absolutamente nada de deliberado em relação a você, apenas discordado num pequeno detalhe envolvendo vocês ficarem juntos pra sempre e terem 3 filhos cujos nomes vocês já havia escolhido, você se pega nutrindo alguns reflexos estranhamente negativos em relação a ela. Ela se oferece pra mandar suas coisas pelo correio e você quase digita “ah, sim, DEVOLVE MEUS LIVROS AMASSADOS COMO VOCÊ DEVOLVEU MEU CORAÇÃO”, ela diz que está preocupada com você e por pouco você não envia um “SE TÁ COM PENA USA PRA FAZER UM TRAVESSEIRO, EU NÃO QUERO SUA PIEDADE NÃO”. Nenhuma dessa frases faz o menor sentido, mesmo se fizessem não iriam fazer com que ela ficasse magoada, mesmo se fizessem isso não iria fazer você se sentir melhor e sim pior, mas enquanto o espírito obsessor Alexandre estiver controlando o seu celular você decidiu só responder qualquer e-mail dela com um adulto responsável do lado.

“Não quero mais ter contato com você mas quero sentir que você ainda gostaria de ter contato comigo”: e daí que não vai dar pra ser amigo. Você acredita na civilidade, você acredita no respeito mútuo, você uma vez, dormindo na casa de um colega, preferiu passar a noite toda em claro do que acordar a pessoa pra reclamar que ela tava roncando. Mas ainda assim você achou que se manter próximo agora era complicado demais, os sentimentos ainda estão muito intensos, você acredita totalmente na amizade entre homem e mulher mas duvida muito da amizade entre homem que chora quando vê uma foto da mulher e mulher que realmente tem outras coisas pra fazer, sem tempo, irmão. Você fala que acha que não tem como manter contato e ela, educada e gentil, diz que então tudo bem.

E você, sentado na sua lendo a resposta dela não consegue pensar em nada além de COMO ASSIM TUDO BEM? Ela não vai nem tentar? Ela não vai nem falar que seria legal ter você na vida dela? Ela não vai se dar ao trabalho de ao menos discutir um pouquinho pra te dar a oportunidade de falar sobre o quanto você está abalado e destruído? Ela vai apenas respeitar a sua vontade, numa tacada só preservando o tempo e paciência dela e te impedindo de desferir intensos golpes contra a sua própria dignidade? Bem, obviamente estamos lidando com um monstro.

“Eu quero me isolar totalmente mas quero que todo mundo saiba que eu estou me isolando”: daí que você sabe que é hora de ficar tranquilo. Sua cabeça não tá funcionando legal, seu julgamento tá um pouco afetado, seu emocional tá num ponto que você tentou plugar um cabo USB no notebook pelo lado errado e ao invés de tentar de novo você começou a chorar no teclado do computador. Sua capacidade de interação humana tá baixa, sua atenção tá absolutamente concentrada no seu próprio umbigo e você se tornou uma companhia tão ruim que o porteiro do seu prédio simulou uma ligação no celular quando te viu chegando no fim do dia. Você nota que obviamente é hora de ficar em casa recuperando seu psicológico até estar de novo em condições apropriadas para o convívio humano.

Mas é óbvio que existe um lado do seu cérebro que quer exatamente o contrário. Afinal, pra que serve o Instagram se não pra postar nos stories, uma por uma, cada uma das músicas tristes que você tem ouvido no Spotify? pra que serve o Facebook senão para postar links para pesquisas científicas de 2006 que dizem que o amor é apenas uma reação química boboca? Pra que servem os amigos e familiares senão pra ouvir de maneira consternada você relendo pela 200ª vez as mensagens de Whatsapp que ela usou pra terminar com você? Porque ao mesmo tempo que você não quer contar pra ninguém o que aconteceu você quer que todo mundo saiba e te console, ao mesmo tempo que não quer culpar ninguém você quer que todo mundo fique indiscutivelmente do seu lado, ao mesmo tempo que quer ficar sozinho pra sempre você não se incomodaria se todo mundo sentasse numa sala pra te ouvir falar sobre seus problemas, se possível sem interromper pra falar sobre os problemas deles, porque esse momento é seu. Você pergunta pra sua terapeuta se ela pode apenas atirar em você com um dardo tranquilizante e ela diz que seu plano não cobre medicamentos.