Uma carta pra você saber que, claro, tá tudo bem

João Luis Jr.
Feb 12 · 4 min read

quando você disse que acabou foi como se alguém tivesse arrancado meu coração e chutado à uma distância de 100 metros. e chegando lá tivesse chutado de novo por mais 100 metros, até chegar num carro e aí entrado nesse carro e atropelado meu coração. e aí dado uma ré e aí saído do carro e chutado mais 100 metros pra frente e depois mais 100 metros pra trás até chegar de volta no carro. e aí entrado de novo o carro e passado por cima dele e aí novamente dado uma ré e aí saído do carro e chutado meu coração por mais 100 metros. e aí colocaram fogo no carro. e antes dele explodir deu pra ouvir que lá dentro tava tocando alpha fm, “ela partiu”, do tim maia. mas fora isso, tá tudo bem.

quando eu coloquei as suas coisas no correio foi como se depois de passar num vestibular muito complicado e entrar no curso que eu sempre quis, eu fosse informado, dois anos e meio dentro desse curso, que não apenas eu estava expulso da faculdade como a profissão que eu queria exercer não existia mais e, só pra minha informação, eu era bem ruim nessa área de atuação, por mais que estivesse me esforçando. e logo depois que fui expulso a avaliação que o mec faz do curso melhorou 200%. mas fora isso, claro, tá tudo bem.

quando eu deletei as fotos do meu celular, quando, depois de selecionar aquela em que você tá sorrindo no terraço do seu prédio, eu cliquei no símbolo pequenininho de lixeira, foi como se eu estivesse selecionando e apagando também os arquivos melhores_momentos_da_minha_vida.jpg e qualquer_esperanca_de_ainda_ser_feliz.exe, e eu fiquei olhando pra tela e talvez eu tenha chorado um pouco, mas pode ser só alergia. mas assim, fora a suspeita de alergia, claro, tá tudo bem. tem muito pólen no ar, não sei.

quando você disse que o problema não era eu, era você, eu nunca tive tanta certeza na minha vida que o problema obviamente era eu e que tudo isso tinha a ver com a minha insegurança irritante, com as minhas piadas ruins, com meu temperamento passivo-agressivo, com a minha cara de bobo, meu jeito lerdo, meu emprego nada instigante e possivelmente o fato de que eu transpiro demais. mas fora eu me sentir como o cara que fazia o mark brendanawicz deve se sentir em relação a parks and recreation, tá tudo bem. mesmo porque esfriou essa semana, eu tô transpirando bem menos.

claro que tem os amigos que eu tenho cansado, a música triste que eu tenho ouvido, aquela noite em que o porteiro me pediu pra abaixar o volume e aí depois disse que eu poderia subir um pouco de volta porque sem a música ele tava me ouvindo chorar e eu chorando faço uns sons esquisitos. tem o fato de que eu quero muito beber pra esquecer mas eu tenho medo de beber demais e te ligar e aí eu preciso ficar bebendo numa quantidade mediana que não serve pra eu me sentir melhor mas provavelmente está saindo caro e vai me fazer ganhar peso. cerveja é puro carboidrato, você sabe.

tem todas as músicas, filmes, séries e comidas que eu não consigo ver sem lembrar de você, tem todas essas pequenas marcas suas espalhadas pela casa, como uma dedicatória num livro, uma foto numa gaveta, um creme que você esqueceu no banheiro. tem o medo de gostar de você assim pra sempre, tem o medo de não gostar de ninguém assim nunca mais, tem a percepção de que eu vou dormir sei lá quantas noites nessa vida e nenhuma delas vai ser com o meu pé encostado no seu. eu tenho medo de ter virado o quentin tarantino pelo tanto que eu pensei no seu pé nesses últimos dias. é bem esquisito. não é legal.

mas assim, fora isso tudo, eu posso dizer, até com uma certa segurança, que tá tudo bem. obrigado por perguntar e espero que esteja tudo bem com você também.

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quando eu tinha 10 anos uma professora disse que eu escrevia bem. até hoje estamos lidando com as consequências desse mal-entendido

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