“Você teria um minuto para a palavra do grupo Bokaloka?”

daí que uma das premissas mais marcantes do pagode noventista sempre foi a canalhice. não uma canalhice alegre, uma canalhice do samba antigo, uma canalhice do canalha que se entende e se aceita como canalha, uma espécie de, vamos colocar assim, déspota esclarecido da calhordagem. não, o canalha do pagode romântico ele é atormentado. ele tem a natureza do canalha, ele tem os instintos do pilantra, ele tem o faro pro erro do homem mau-caráter. mas ele também tem o medo do trabalhador com ponto pra bater, a carência do romântico, o senso de arrependimento do cara que assim que acaba de roubar o banco tá preocupado se prejudicou a senhorinha idosa do caixa.

então o canalha do pagode noventista é sempre um arrependido. ele não sabe o que ele vai fazer com essa tal liberdade. ele descobre que o amor só se mede depois do prazer. ele alega que foi preciso perder pra aprender a valorizar a mina de fé. ele vacila, e vacila feio, e assim que vacila ele percebeu o vacilo. o pagode romântico da década de noventa é basicamente isso: é o homem da classe média processando através da música e do passinho a sua tendência a vacilar. ele se arrepende, não da boca pra fora, mas com aquela sinceridade que apenas o vacilão convicto consegue adquirir. porque ele sinceramente não processou a ideia do vacilo até ele, o vacilo, acontecer. e mesmo nas músicas que não são necessariamente sobre um vacilo, você percebe um vacilo implícito, porque nelas existe aquele romantismo que não é natural, que não é espontâneo, mas aquele romantismo fruto da culpa no cartório da paixão, do nome sujo no serasa do amor, do título protestado na justiça do sentimento. o pagode romântico noventista é uma imensa alegoria da luta entre a racionalidade e o instinto, como um grande duelo entre id e superego onde o superego só chegou depois da briga já resolvida e pensou “vou pegar esse cavaquinho e ver o que sai”

e enquanto isso tá rolando, enquanto o pagode romântico tá se tornando um grande campo de erros, arrependimentos, vacilos, recuos e pedidos de perdão, tá lá o grupo bokaloka. e o grupo bokaloka tá fazendo música sobre ser amante e ainda reclamar com a mulher quando ela sai com o namorado oficial, tá fazendo música sobre namorar duas mulheres ao mesmo tempo, sobre querer ficar com a melhor amiga da namorada, e essa, que é a minha favorita, que narra a história de um cara que chama uma gatinha pra sair, esquema bacana, bonito romance, primeiro encontro, mas ela leva uma amiga. e aí o cara não apenas desiste de ficar com a gatinha inicial pra ficar com a amiga como ainda pede que ela (a gatinha inicial) ajude a esquematizar o lance, tudo isso nos seguintes versos.

“Vou te mandar a real
Estou apaixonado pela a sua amiga,
Vê se não fica mal…
Mas bota ela na minha fita”

acho que já disse mais de uma vez que o só pra contrariar é pro pagode romântico o que os beatles são pro rock, da mesma maneira que os caras do art popular seriam os nossos beach boys (leandro lehart é o brian wilson que a gente não foi esperto o bastante pra abraçar) mas com certeza, seguindo essa analogia, o bokaloka sempre foi a versão dos rolling stones que a gente merece.

https://www.youtube.com/watch?v=FeGFbXrE-5Y

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