A Correnteza

João Marcus
Aug 27, 2017 · 5 min read

Programação (assim como outras tarefas, mas é a que eu conheço…) é como construir múltiplos quebra-cabeças ao mesmo tempo dentro de um labirinto. Você precisa, ao mesmo tempo, saber onde você está, onde já esteve, onde podem ou não estar as peças e saber a qual quebra-cabeças cada peça pertence. É uma atividade que requer muita capacidade de abstração, de conseguir mentalizar ao mesmo tempo uma grande quantidade de informações e saber como fazer tudo se encaixar de maneiras que funcionem da forma adequada. Porém, nada disso é suficiente se não há foco. Se você não consegue manter o foco no que está fazendo, em pouco tempo fica perdido no labirinto, com um monte de peças misturadas, mas sem saber o que fazer com elas. O resultado final, se é que sai alguma coisa no final, é uma colcha de retalhos bisonha.

Há um termo que ouvi uma vez sobre o estado mental em que às vezes um programador entra quando está trabalhando: o “flow”. Em português literal, a tradução seria “fluxo” ou “corrente”, mas eu não gosto dessas traduções, o termo “correnteza” traz uma imagem mental mais condizente. Explico: quando entro nesse estado de foco, chego a não ouvir o que colegas ao meu lado estão falando. O foco passa a ser aquela tarefa e somente ela. Então, eu começo a codificar, desenhar possibilidades num caderno (o ato de escrever e desenhar me ajuda a expressar melhor minhas ideias), reescrever código, escrever código, testar, até que eu esteja satisfeito com o resultado. É por isso que eu chamo esse estado de “correnteza”: eu estou seguindo uma correnteza mental, me deixando levar por ela, remando de vez em quando para ajustar um pouco o rumo. Não é um exatamente piloto automático porque estou, até certo ponto, pensando, seguindo um raciocínio, analisando os fatos e possibilidades, porém, sempre dentro da correnteza.

Esse estado mental nem sempre é bom, pois a correnteza pode nos levar a fazer algo que, quando nos damos conta, ficou ridículo e poderia ter feito melhor em 10 minutos se prestássemos mais atenção ao caminho que estávamos seguindo. O motivo é simples: quando não prestamos atenção ao rumo que a correnteza está nos levando, não nos damos conta que, em um certo momento, começamos a seguir para um rumo errado. Estamos tão focados na tarefa que não percebemos que já estamos bem longe de onde imaginávamos estar.

Recentemente, comecei a pensar sobre como isso não se aplica só ao trabalho, mas também à vida, afinal, também seguimos correntezas na vida o tempo todo e não percebemos. Aos poucos, nos deixamos levar pelas circunstâncias e não nos permitimos simplesmente parar para pensar se gostamos da direção que estamos seguindo. É mais cômodo, a princípio, simplesmente deixar que a correnteza nos leve. Porém, quando nos deixamos levar demais e não fazemos nada a respeito, podemos enfrentar duas situações bastante desagradáveis: o bote pode virar ou podemos acabar na deriva em alto mar.

O Afogamento

Quando nos deparamos com uma turbulência e não conseguimos manter o controle do nosso bote, este vira, e encontramo-nos então dentro de um rio com uma forte correnteza. Esta nos arrasta com força e fúria, e, por isso, vem o desespero: não conseguimos nadar em direção às margens, o rio corre rápido demais para conseguirmos parar e olhar o que está à nossa volta. Começamos a ficar sem forças para lutar. O rio parece que nos vencerá e o afogamento passa a parecer inevitável. Em casos extremos, pode parecer até mesmo um alívio, porque ao menos você só afogará de uma vez e pronto. Não parece haver muito mais o que fazer. Afinal, as forças já estão se exaurindo e não vemos mais uma saída.

Pode-se passar semanas, meses, anos nos afogando, e até mesmo nos acostumando ao afogamento. É, porém, um verdadeiro suplício, algo que acaba rapidamente com todas as forças de qualquer ser humano, até mesmo daquele mais forte. Ninguém consegue viver dessa maneira e ser feliz.

Deriva em Alto Mar

Quase tão perigoso quanto o afogamento é ficar à deriva em alto mar. Isto acontece quando o rio continua seguindo um curso relativamente calmo e, por isso mesmo, acabamos não pensando mais no destino a que estamos sendo levados. Afinal, está tudo tranquilo, que perigo pode haver nisso, não é mesmo? Nem nos damos conta que nos desviamos de todos os rumos aceitáveis há muito tempo. O comodismo nos leva a esta zona de conforto em que, se não precisamos pensar no caminho, então está tudo bem, podemos deixar tudo como está. Só quando já estamos há alguns dias sem água nem comida à deriva percebemos o tamanho do problema. Não vemos nada além de água por todos os lados. Os remos tornam-se acessórios decorativos.

É aí que vem o desespero. O isolamento e a falta de esperanças tornam-nos fracos e afetam nossa capacidade de pensar em uma saída. Até mesmo própria visão fica afetada: depois de muito tempo sem enxergar nada além da água, ficamos cegos para todo o resto.

Saindo do buraco

Os sinais

Às vezes Deus já está gritando, disparando sinalizadores, jogando botes, galhos, enviando helicópteros de resgate há muito tempo, através de amigos e pessoas próximas. Porém, nós não percebemos nada disso porque ignoramos todos os sinais, seja porque somos orgulhosos demais para pedir ajuda ou porque, por estarmos desesperados, não conseguimos enxergar nenhum auxílio possível. Preste atenção aos sinais. Eles quase sempre existem.

Não tente ser perfeito

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Ser perfeito não é obrigação de nenhum ser humano na face da terra. Você não é perfeito e não valerá menos porque não conseguiu se virar sozinho. Na verdade, pode ser que as pessoas próximas a você queiram justamente o contrário: que você deixe de se preocupar com a perfeição e mais com quem está ao seu redor. Um bote bonito e vistoso não tem tanta utilidade quanto um bote comum depois que virou ou quando você está em alto mar.

Ofereça ajuda, não julgue

Todas as pessoas passam, invariavelmente, pelos seus próprios problemas. Ofereça ajuda, sempre tendo em mente que você pode não saber a dimensão das batalhas que o próximo está travando. Não imagine que você seja um modelo para todos. Minha mãe me dizia que devemos sempre tentar vestir o mocassim do próximo, e acredito muito nisso hoje em dia.

Conheça seus limites

Lembre-se: se você está sendo arrastado, deixar-se arrastar ainda mais não vai ajudar ninguém. Pode ser que você não seja forte o suficiente para resgatar alguém que está perdido demais. Um bombeiro não tenta salvar alguém quando ele mesmo está em chamas. Ele provavelmente vai tentar primeiro encontrar alguém para ajudá-lo a se salvar e depois tentar salvar alguém.

Não finja que os problemas não existem

Beber, por exemplo, pode ser divertido, mas não faz nenhum problema desaparecer. Na verdade, o mesmo pode ser dito sobre praticar esportes, fazer escalada, jogar videogame, fazer sexo. Se você faz tudo isso para aliviar o estresse e se divertir, ótimo, esse é o objetivo! Porém, se o faz para fugir de seus problemas, saiba que eles continuarão ali, esperando você voltar.

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João Marcus

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Developer / Software Architect / System Analyst at SERPRO. Passionate about tech and learning new and shiny stuff!

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