Metro, Linha, Comunicação.
Comunicação é uma constante na vida. É impossível não comunicar. Verbalmente ou não verbalmente, passamos mensagem ao outro. Até o silêncio é uma forma de comunicação. O que diz de mim recusar-me a falar?
A comunicação é algo de muito complexo.
Ludwig Wittgenstein diz no seu Tractatus logico-philosophicus, que “tudo o que pode ser pensado pode ser pensado claramente. Tudo o que pode ser dito pode ser dito claramente”.
Conheço umas boas dezenas de pessoas que teriam todo o interesse em provar-lhe o contrário.
Isto porque os nossos conflitos têm origem, muitas vezes, na nossa falta de clareza no ramo da comunicação. Dizemos qualquer coisa que é interpretado de uma certa forma por outra pessoa e pronto, o conflito aparece.

A verdade é que é desculpável. A comunicação não passa de um telefone estragado inconsciente. Tem demasiadas “paragens” para ser 100% eficaz. Reparem:
1º -Pensamos o pensamento. Criamos uma representação interna daquilo que queremos transmitir;
2º- Tentamos verbalizar esta representação(nunca sendo possível fazê-lo a 100%);
3º- O outro recebe esta verbalização e filtra ele próprio certas partes, de acordo com os seus próprios filtros;
4º- O outro cria uma representação da nossa verbalização e reage a ela;
Vista assim, é normal que a nossa comunicação tenha falhas. É por isso que a clareza é de extrema importância nos dias de hoje!
Um dos exemplos mais mundanos que vos posso dar aconteceu num passeio com a minha namorada.

Estávamos por Lisboa, tínhamos ido dar uma volta e voltámos de metro para casa. A paragem era S.Sebastião. Para os de vós que não conhecem o metro de Lisboa, S Sebastião funciona como uma estação “bípede”, ou seja, faz ligação entre 2 linhas diferentes, a vermelha e a azul.
Ora, uma das saídas leva à intersecção de ambas as linhas e para facilitar o acesso tem um corredor paralelo ao corredor imediatamente ao pé da linha de metro para as pessoas circularem mais depressa e poderem chegar mais rapidamente à intersecção.
Eu disse à minha namorada que era por ali. Ela disse que não era.
Eu tinha a certeza absoluta que era, já tinha passado naquele metro dezenas de vezes. E, tendo em conta isso, apontei para esse corredor paralelo e disse que tinha a certeza que era por ali.
Na altura ela morava em Lisboa e eu não. Pegou nesse argumento forte, disse que também conhecia o metro e que tinha toda a certeza que não era por ali.
Estivemos nisto, parados, perto de 1 minuto e meio.
“É por ali!”, “Não é nada!”…
Até que eu cedi, e disse que ela podia escolher a saída por onde queria ir e que depois, se não fosse a certa, voltávamos para trás.
O que aconteceu a seguir surpreendeu-me por completo.
Ela dirigiu-se para a saída que eu estava a falar e não para o lado contrário.
Eu perguntei-lhe: “Então mas não era para ali?” e tive uma resposta que me surpreendeu. “Não, eu sempre disse que era por aqui. Não tem é de ser pelo túnel paralelo a este”.
Ou seja. Estávamos ambos a falar da mesma saída, do mesmo sítio, com a diferença de que:
Eu achava que ela estava a falar da saída na direção oposta.
Ela achava que eu estava a teimar que tínhamos de seguir pelo túnel paralelo ao metro, que vai dar exatamente ao mesmo sítio que o túnel principal.

Não deixa de ser interessante que, ao longo dos últimos tempos, a trabalhar com várias dezenas de pessoas, me tenha apercebido que, muitas das vezes é isto que acontece em contextos profissionais e pessoais.
Há um suposto “conflito” que apenas aparece devido à falta de clareza na nossa comunicação.
Da próxima vez que tiveres de comunicar uma ideia a alguém ou se te vires preso/a a um conflito, pensa bem se ambas as partes estão a praticar uma comunicação clara. Dá tu o pontapé de saída e começa a trazer o máximo de clareza para a tua vida!