As Coisas Que Existem Em Nós

Comuniquei a todos que você havia chegado e que ficaria o tempo que quisesse. Tocava Valérie e apenas uma luminária estava acesa quando mergulhei em você. Não lembro o momento exato em que decidi saltar, mas tenho a impressão de ter sido entre alguma história da Romênia e a confissão de um pecado. Quanto tempo se passou? Não muito. Mas é que tem tanto de você na minha memória. Isso me deixa confuso. O encontro das coisas que existem em nós talvez tenha sido mais forte do que o encontro de nós mesmos. Coisas complexas, de um jeito bonito e desnecessário. Outra noite você veio me visitar. Trouxe ritmo, três possíveis grandes projetos e um maço de cigarro. Será que um dia você vai perceber o mal que eu te fiz? Se tiver rendido um samba, talvez tenha valido a pena. Você tem esse hábito de escrever sambas a quem lhe faz mal. Como naquela vez em que roubaram a sua paz e te fizeram questionar a beleza das coisas que havia em você. Por alguns meses te vi sair desacompanhada do seu olhar. Você estava presente, seus olhos não. Eu te perguntava por eles, você dizia que estavam apaixonado. Tinha restado apenas o pânico de dirigir por túneis longos. Esses dias você estava sentada numa cadeira que parecia um útero iluminado pela lua cheia. Em algum momento reconheci o seu olhar de volta. Ele estava lindo, vívido e melancólico. Disse que tinha andado perdido, e que precisava apenas de um tempo recolhido para terminar de se recuperar. Falou ainda que a única coisa de que se lamentava era a falta de carboidratos e que, de resto, teria feito tudo igual. As coisas que moram dentro mim imediatamente se excitaram para descobrir o que há de novo nesse olhar. Ele é tão bonito… Se tivesse assistido a cena, Juliana teria se emocionado. E eu diria que espero seguir mergulhado em você, não se importa se por águas tranquilas ou mares revoltos

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