Carreira Interrompida

Eu tinha doze quilos a mais que a média dos meninos que brincavam comigo na rua e quatro pelos pubianos recém-nascidos quando o Paulo Henrique me convenceu a ser o goleiro do time que ele estava formando para disputar o campeonato do bairro. “Você só precisa ficar parado, João, e, se gente ganhar, eu te pago um x-bacon no Aldo’s”. O Paulo Henrique era o meu melhor amigo e o boleiro mais temido do quarteirão. O x-bacon do Aldo’s era a coisa mais deliciosa a ser experimentada em toda a cena gastronômica de Bataguassu — na época com 14 mil habitantes e duas lanchonetes: o já supracitado Aldo’s Lanches e o estreante Cachorro Quente da Tia. O acordo parecia bom para todas as partes.

Contra todas as expectativas, a nossa equipe avançou vitoriosa e invicta no torneio que era disputado no campinho de terra do Jardim Acapulco, que por coincidência ficava ao lado da casa da Aninha — minha paixão da época desde que relou suas mãos na minha, sorriu e olhou nos meus olhos quando me emprestou uma borracha numa aula de matemática da quarta série b.

A zaga do time tinha sido reforçada por ordem do Paulo. Isso facilitou meu trabalho de “ficar parado” e permitiu que eu experimentasse a glória de fazer parte de um time vencedor, mesmo que minha grande defesa na competição tivesse sido uma bola chutada diretamente na minha voluptuosa circunferência abdominal e imediatamente rebatida para o Raulzinho fazer um triunfal contra-ataque.

Depois de uma campanha difícil e estafante de dois jogos, estávamos na final. O derradeiro jogo seria disputado contra o time do Luizinho. Eu não ia com a cara desse sujeito, principalmente pelo fato de ser ele o dono do coração da Aninha — que estaria na plateia. Ela havia me confessado a paixonite algum tempo antes quando, como um bom gordinho apaixonado, nos tornamos amigos. Decidi então que naquela partida a minha atuação seria ativa. Estava determinado a ver a derrota do meu oponente e daria o máximo que meu tecido adiposo permitisse.

Seis minutos de jogo já havia se passado quando vi Luizinho driblar o Paulo no meio de campo, tabelar com o Renan e chutar para o canto esquerdo do meu gol. Era minha chance de brilhar. Eu devia isso ao Paulo, a mim mesmo, a Aninha e os meus quatro pelos pubianos recém-nascidos. Aquela defesa seria o meu passaporte para o mainstream boleiro do bairro. A glória.

Quando vi a bola vindo em minha direção, desafiei toda e qualquer lei da física ao executar um pequeno giro e saltar belissimamente em direção à pelota. Teria sido uma defesa legendária. O problema foi que, entre o giro e o salto, fui traído por mim mesmo e principalmente pela chuteira que meu irmão havia me emprestado na semana anterior. O cadarço desamarrado no momento da ação foi o causador de um desequilíbrio homérico que levou minha cara redonda a colidir diretamente com a trave. Quando retomei a consciência, notei um supercílio aberto, um nariz dolorido e, logo em seguida, cuspi na mão um quarto do incisivo frontal. Aninha, que tinha medo de sangue, teve uma queda de pressão e foi socorrida pelo Luizinho.

Lamentei pelo x-bacon, pela Aninha, pelo Paulo e por meu dente enquanto era levado ao hospital. Depois fiquei sabendo que a bola que não defendi tinha ido para fora. Nosso time perdeu por 2 a 1. Desde então, a cena volta a me assombrar toda vez que algum bem intencionado pergunta: “você joga bola, João?”.

6�h

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