Da covardia intelectual
Meus dois centavos aos que compartilham o post de Deborah Cattani
Carl Sagan criou o bordão “alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias”. Este captura um princípio geral do empreendimento científico e filosófico que já havia sido articulado de um modo ou de outro por diversos pensadores como Hume e Laplace.
Tal princípio também vale para as ciências sociais. Se alguém afirma que o que houve em Ruanda não foi um genocídio, há de apresentar evidências suficientes para tanto. Não fazê-lo é desonestidade intelectual, além de uma falta de sensibilidade com os que morreram neste conflito.
Há 2 dias, um texto publicado pela jornalista Deborah Cattani foi compartilhado por mais de dez mil pessoas. Este teria passado desapercebido por mim, não fosse o holofote dado e a seguinte afirmação:
“O que o estado de Israel está fazendo é […]
mais desumano que o holocausto…”
Uma afirmação deveras extraordinária. E qual o suporte factual que o texto apresenta para esta hipótese? Nenhum. Trata-se de um texto de 30 linhas, sem uma fonte, sem uma referência à qualquer estudo relevante, basicamente uma grande falácia da evidência anedótica. O irônico é que o próprio texto começa com uma ode ao estudo e à importância de não sermos alienados. Talvez estejam faltando cadeiras de método científico e de pensamento crítico em alguns cursos de jornalismo do Brasil.
Comparar o Holocausto com um complexo conflito que teve, em 66 anos, em ambos lados, o mesmo número de fatalidades que os campos da Polônia podiam produzir em apenas algumas horas é minimizar o que ocorreu aos milhões que pereceram em fábricas projetadas exclusivamente para a morte e aos que sobreviveram e que, ainda hoje, têm de escutar sirenes e mísseis caindo por sobre suas cabeças em todos os cantos de Israel.
E, fazê-lo em um texto de 30 linhas, sem o mínimo rigor, apelando à própria autoridade, de forma tão leviana, é uma das maiores covardias intelectuais que eu presenciei nos últimos tempos. Mas não seria, não fossem os likes.
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