A Coisinha e uma leve malha

Uma leve malha, finamente entrelaçada, opaca. Não descansa , forma uma bulbo preguiçoso, como uma bolha em baixo d’água. A luz atravessa. Dentro, habita uma criaturinha aracnoide, de pequeno, porém intenso brilho azulado. Não se enxerga o que é, é para sua malha uma essência. Ao passo que surge no mundo e se engatinha com as patinhas para fora do escuro, vê-se em um mundo frágil e protegido. Cresce sem se preocupar com escoriações, é pluma em campo aberto! A pequena criatura em seu invólucro é invencível. Ela é pra o mundo inalcançável, e o mesmo só a vê por uma fresta imaginária.

Mas como ela se cansa disso tudo… Tudo é liso, escorregadio, seguro. Não há diversão, não há surpresas! Quando esbarra em pontas ásperas o salvamento e a recuperação vem como de pronto, deixando de lembrança só o sorriso duradouro de uma aventura. Não há fortalecimento, a malha resiste fina, o mundo real resiste bruto, cru e impetuoso. Quando sua tão sonhada liberdade finalmente lhe acometer, será tomada de supetão pelo golpe derradeiro da vida, e entrará em certa decadência.

Como proceder? Como seguir, senão resistindo à segurança? Como justificar uma guerra contra o próprio conforto e aconchego? Fez-se forte em sua fraqueza a criaturinha, e lançou-se ladeira abaixo contra o julgo e a opressão da riqueza. Tomou mais porradas do que gostaria de ter se lembrado. Sua malha suportava bravamente, sem lhe ser dada a chance de se romper. Como não se recuperava, não se fortalecia. Seguia se enrolando em asperezas e agudezas, até que rolou lentamente à beira de um desfiladeiro. Coisa inimaginável, definitivamente final, seria. De brilho fraco, patinhas estendidas, desistindo da púbere luta, a criatura abre dois olhos e encara o fundo com obstinação. Olha ao redor e vê sua malha em bolha puir em rasgos e vazamentos. Não antes de se decidir em relação à funda queda, foi levitado por uma outra criatura, dessa vez com pequenas asas, e levado até uma beira em um canto qualquer. Um canto qualquer que seguro fosse.

Lá, essa segunda coisinha, alada e brilhando rosa, foi o vetor de toda cor no universo. Tudo entre as duas era colorido. Azul e rosa deixaram de ser binários para tornarem-se arco-íris, fundidos e expansivos em sua pequena varanda cuidadosamente construída. Deixaram tanto as cores do universo nas costas que ele foi lentamente cinza, até que foi enfim todo plúmbeo. E suas malhas se amealharam, se engancharam e se entortaram até que, no lugar de uma nova coisa, lá estavam duas coisinhas destruídas.

Salvo estava do abismo, é verdade, mas que salvação é essa que só lhe fez pensar ainda mais sobre as ânsias do fim? E agora, quando olhava o universo, via tanto nada, tanto cinza. Quase se fora abismo abaixo, é verdade, mas teria sido uma divertida descida cheia de cores. Agora estava preso a salvo em um mundo ambíguo. Outra vez. A epifania de se ver enclausurado foi tamanha, que bastou uma aparição breve de uma coisinha alaranjada com asas, um convite na mão, e a criatura antes azul que tanto lutou para escapar da sensação de segurança visse cores novamente. E essas cores migraram.

O espectro colorido tocou o mundo todo antes cinza, e sem pensar duas vezes naquela que a resgatou do tombo certeiro, se arremessou contra o mundo e o infinito com a cara e a coragem de um recém-nascido. Viu o abismo chegando cada vez mais rápido, ficando a cada instante mais perto de sua malha. Quando passou zunindo pela beira onde foi resgatado, sorriu; olhou o fundo nos olhos e pensou: “ Você não perdeu nada por me esperar aqui”

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