A morte e o despreparo do ateu — Pt.3

O chão se abriu de repente sob os pés do ateu, o que lhe permitiu vislumbrar labaredas colossais em um movimento frenético. Flutuou por uns dois segundos, antes de levantar o rosto e olhar para Lúcio, que devolveu o olhar com um sorriso: “Segura a onda cinco minutinhos, a queda nem é tão ruim assim”. Feliciano ria que se acabava, trocando em miúdos com Yaohushua. Os dois ali pareciam bem íntimos.

Ao olhar para baixo novamente, o ateu sentiu seu corpo sendo puxado gradativamente, até que se viu em queda livre rumo às profundezas do inferno. No caminho, via almas distorcidas gemendo. Ou gargalhando, o som era bem parecido. Começou a ouvir barulhos de vidro se chocando contra vidro, risadas histéricas passaram a tomar conta do silêncio que havia no paraíso, e o cheiro de álcool e maconha era uma coisa de outro mundo. Por mais que estivesse demorando a atingir de fato o chão, aquele aroma adocicado o agradava. Trazia boas lembranças da época de república.

Seus pés tocaram o chão como uma pluma. Era verdade sim que o inferno era quente, mas não tão quente quanto o Rio de Janeiro. As labaredas de fogo de quilômetros de altura que enfeitavam o lugar pareciam apenas isso: decoração. O chão, meio arenoso meio pedregoso, lhe incomodava os pés descalços, mas era esse o único sentimento de dor ou desconforto que experimentava. Até ali, tudo ia bem.

“Toma esse chinelo aqui, meu querido. É feito de borracha de pneu, super ecofriendly e vai te impedir de machucar os pés nesse chão. Que é tenebroso, aliás, mas não mais do que asfaltar tudo isso aqui com petróleo. Eu que nos livre”, disse Lúcio, repousando a mão sobre o ombro do ateu, que os vestiu de imediato.

“Isso aqui não me parece tão ruim assim”, disse o ateu, “qual é o truque? Você me alicia pra depois me torturar eternamente? Sei lá, eu ainda estou esperando alguma surpresa desagradável do tipo”

“Olha, eu lido com esse tipo de dúvida desde que o mundo é mundo, então não te aperreie não. Eu sei que agora te dizer que não tem catch nenhum não vai te fazer ficar menos desconfiado, mas acredite em mim: aqui é só prazer e diversão e liberdade”, disse lúcio, “Inclusive, fique a vontade pra sentar em uma daquelas mesas. Já já eu te acompanho.”

Lúcio apontou na direção do que parecia ser uma construção antiga, daquelas imperiais. O formato era de um cortiço de dois andares, mas a decoração era impecável: rústica, bem cuidada, com eira, beira, e tribeira. Uma coisa linda de se ver.

No andar de baixo, o ambiente lembrava um Pub irlandês. Sem poupar nas madeiras de lei, parecia altamente convidativo. Sem contar que todas as pessoas que circulavam pelos arredores pareciam de extremo bom humor.

Como Lúcio tinha desaparecido em uma fumaça meio enxofre meio lavanda, não sobrou nada ao ateu a não ser se encaminhar ao Pub do cortiço imperial. As mesas estavam deveras ocupadas, salvo uma ou outra que ainda tinham lugares vagos. Ao perceber o olhar perdido do recém chegado, um sujeito magro, com óculos redondos e uma veste indiana conhecida como dhoti logo se levantou da mesa onde estava e lhe estendeu os braços:

“Ora, venha cá, alma nova! Sente-se, sente-se, sente-se, junte-se a nós!”, bradou o pequeno senhor, parecendo excitado de ter encontrado uma nova companhia. “Me chame de Mohandas. Eu não bebo, mas peça uma caneca de chopp que parece que o Lúcio ta pagando tudo pra todo mundo hoje”

À mesa com ele estavam sentados outros dois sujeitos; um carrancudo, de semblante sério e sobrancelhas grossas. Não fez questão de se apresentar. A terceira, no entanto, não parava de sorrir. “Hello, darling! Me chame de Amelia. Esse senhor de cara emburrada é o Nelson, já estava na mesa quando cheguei com Mohandas. Vive aqui, pelo que me dizem”, disse a mulher, “qual seu nome, querido?”

Antes que pudesse responder, Lúcio materializou-se em uma cadeira de três pés, de novo cheirando a enxofre e lavanda.

“Bom, vejo que já começou a se enturmar. São boas pessoas, essas almas que aqui lhe acompanham”, disse o demônio, que havia trocado suas vestes formais de um julgamento por uma saia e uma regata, coisa mais confortável, “Agora, quanto àquela caixa de cerveja…” e brotou na mesa uma caneca de chopp para cada um. Na frente de Mohandas, uma caneca de masala chai.

“Ao calouro!” bradou Lúcio, ao que todos responderam em uníssono: “AO CALOURO!” O ateu, que já não acreditava em muita coisa, não perdia a perplexidade. No entanto, ergueu a caneca mesmo assim e ensaiou um brinde: “À vida longe dos moralistas! Viva a liberdade!”

O bar inteiro entoou: “VIVA A LIBERDADE!”

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