O Jurado

Fazer as pazes com os traços menos comedidos do seu caráter é sempre uma batalha. Aposto que nunca termina, se for dar ouvidos ao meu pai. Quando se tem tanto amor, e se é tão amor, os esvair-se é invariavelmente sofrido. É ter alguém abraçado junto e sentir o sangue e o coração lhe dizendo ‘É isso!’, esperando só a razão vir lhe contar que o mundo é três vezes mais cinza que as cores da lente de um apaixonado. Ter a sensibilidade e uma percepção amorosa do mundo cobra seu preço. É preciso cavar um buraco para fazer um monte.

Olha-se a vida em uma eterna busca de um receptáculo para tanto afeto, ou mesmo só aquela uma pessoa que, de tão bonito encaixe, dá fim a um infinito de sensações ruins. É o calor humano que vibra, que completa. O pedaço disso que lhe sofre a existência, no entanto, é saber sempre que o amor romântico é algo para se achar várias vezes. O romântico que não pode se medir por excesso de amor não vive uma, nem duas, nem três histórias lindas de amor. Mas infinitas, eternas histórias da Disney, que nunca acabam e sempre se repetem, começando toda vez com uma cor e um caminho diferente. Aos 13, aos 20, aos 70.

Essas almas, tal como a minha, respondem a questão do Djavan quando o mesmo pergunta, O que é o sofrer para mim que estou jurado para morrer de amor? Ora, meu caro, o sofrer é só o outro lado da moeda. É só o espaço entre um amor eterno e outro. O sofrer para essas almas não é como o sofrimento humano, estoico, invariável; é um sentimento de força, resiliência. Quando se ama tanto e tantas vezes, sofre-se só por força do hábito.

Por fim, a história de amor que se vive é com o mundo e a raça humana. Essa sim, monogâmica, única, infinda. As outras, que polvilham nossa vida e tanto a enfeitam servem para não nos fazerem desistir de sentir. Se fosse o caso e desistíssemos de replicar e espalhar um amor que sempre só cresce, negaríamos ao nosso mundo comum algo de raro. E negar algo tão precioso a um amante tão bonito e tão fiel é ignorar as chances de fazê-lo melhor.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.