A inversão na desigual educação do Brasil

Um dia após a divulgação das notas do ENEM, as manchetes de vários portais sobre o assunto são os jovens prodígios — principalmente o jovem de Piauí que tirou mais de mil na prova de matemática do exame. Não há nenhum problema em mostrar e até contar a história desses jovens, que com muito esforço conseguiram a nota necessária para o tão sonhado ingresso em uma “federal”.

Mas há um Brasil que também precisa ser mostrado, um Brasil desigual na educação, que apesar do ENEM mostrar claramente, ainda não tem o destaque devido.

Já pararam para pensar quantos alunos aprovados no SISU são de escolas públicas ou de bolsistas em particulares? O INEP diz que reserva 40% das vagas para esses “cotistas”, ou seja, 60% dos alunos que garantem a entrada em universidades públicas através do sistema, possivelmente, são de estudantes de escolas particulares. No caso do vestibular da Universidade de São Paulo — uma universidade pública considerada a melhor do país — a situação é ainda pior. Boa parte dos estudantes de colégios estaduais, municipais e federais nem tentam se inscrever (menos de 30% dos inscritos no vestibular da Fuvest são de alunos de instituições públicas, segundo dados de 2013) pois sabem do grau de dificuldade. Resultado: mais de 90% das vagas da USP são preenchidas por estudantes provenientes de colégios particulares. Viu só a inversão?

O aluno que no ensino médio teve acesso a uma educação privada — cara, mas quase sempre de qualidade superior à pública — vai para o ensino superior com vaga gratuita em uma universidade pública. E quem estudou numa escola pública durante o ensino médio? Esse pode tentar uma vaga no Prouni ou um financiamento através do FIES (bons programas do governo), no entanto, grande parte vai mesmo fazer a famosa jornada dupla — trabalho o dia todo e faculdade a noite. E uma faculdade não dura menos três anos. Entre tantas instabilidades, há sempre inseguranças. Será que vou ter emprego para pagar os três anos? Será que vou ter tempo de fazer os trabalhos? Será que vou ter tempo de estudar para as provas?

Qual o resultado disso? Profissionais-estudantes esforçados, mas que por causa de limitações físicas (cansaço) e mentais (preocupações) podem não ter todo o potencial de aprendizado e desenvolvimento atingido.

Mas que fique bem claro. Não estou reclamando dos estudantes de escolas particulares garantirem boa parte das vagas das públicas. Eles conseguiram por mérito. Independente da melhor estrutura de ensino, eles também se esforçaram para garantir seu futuro ingressando em universidades públicas, quase sempre melhores que as particulares. O problema mora nas escolas públicas, que em sua maioria não conseguem fornecer aos estudantes uma qualidade no ensino que atenda às expectativas.

Há estudantes esforçados em ambas e também há desleixados nas duas. A questão não é criar mais um fla-flu no Brasil. E sim debater sobre a diferença gritante entre o ensino em escolas públicas e particulares. Uma vez eu ouvi uma frase do economista Eduardo Gianneti que me fez refletir muito. A frase era mais ou menos assim: “Igualdade não é todos chegarem ao topo, mas sim todos terem as condições iguais para tal” e no Brasil atual uma grande parte dos alunos de colégios públicos não têm condições de garantir uma vaga gratuita em uma universidade pública. E se não fossem as cotas, a situação seria ainda pior.

Enfim, muitos educadores dizem que o problema vem do ensino básico, outros dizem que o ensino médio que é falho, mas o importante é continuar cobrando soluções para essa situação. Se queremos um Brasil justo, começar pela igualdade na educação já seria um grande passo.

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