O ritual do crivo

As objetividades e as subjetividades das consideradas “drogas” formam um campo no mínimo, intrigante. Podemos listar desde fenômenos físicos e processos metabólicos, localizados no campo mais objetivo, até na transição entre objetividade e subjetividade dos relatos de usuários acerca das percepções que surgem ao ingerir a substância.

A maioria destas drogas pode ser consumida de forma rápida; comprimidos, selos, bebidas, seringas… Diversas, de fato. Mas muitas se unem num quesito: a possibilidade de serem administradas em quantidades exageradas em um período de tempo muito curto. Desta forma, a ritualização destas drogas é muito variada, correndo desde, tomando o exemplo do álcool, o whisky servido socialmente em pequenas doses e ingerido em pequenos goles, até o consumo desenfreado de vodka a fim de ficar “fora de si” em festas que tem estes propósitos.

Mas engraçado é o ritual do cigarro (não me referindo apenas ao cigarro em si, mas nas drogas em que o consumo é análogo ao do cigarro). Diferente das outras drogas, ele não pode ser consumido numa única tragada. O cigarro pode ser consumido rapidamente (de forma limitada), mas nunca imediatamente. Independente de substância, o ritual do cigarro torna-se um ansiolítico por si só. Pessoas que fumam na intenção de diminuição da ansiedade natural são automaticamente forçadas a dar uma tragada por vez, independente do ritmo das tragadas. Talvez esta característica carregue a possibilidade de simbolicamente nos mostrar como as coisas não precisam estar sempre em ritmo de atropelo.

Particularmente, eu não fumo. Dimensionando o meu relato: eu sequer teria noção para chutar agora quantas tragadas são necessárias para terminar um cigarro bem vagabundo. Mas este texto se baseia nas vezes em que eu tive desejo de fumar quando estive sozinho. Aparentemente, eu achava que poderia ser uma boa solução para a ansiedade; entretanto, eu lembrava que eu não gostava do cheiro, do sabor, e nunca senti significativamente a alteração de consciência proporcionada (como característica de uma substância psicoativa). E no amarrar dos reflexos, esse ritual ansiolítico faria um certo sentido para mim, mesmo que eu hoje o recuse. Mas fez sentido para mim.

No fim das contas, podemos levar a vida com tragadas demoradas e singulares. Mas a vida é mais saborosa.