Sinta na pele esse clima hostil — Ou, obrigado pelos serviços e que Deus te elimine.
Uma das maiores leis do futebol moderno é a tal lei do ex, onde um ex jogador de uma determinada equipe ao enfrentar sua agremiação anterior acaba por fazer um grande jogo ou marcar um gol decisivo. Rodada após rodada vemos esta situação, um jogador faz gol em sua ex equipe, e quase sempre evita comemorar ou apenas vibra contidamente.
O fato é que o torcedor é comumente cobrado pela tal da gratidão. Sempre nos deparamos com comentários do tipo “Ele foi importante em um título recente” ou “Lembra quando ele decidiu aquele clássico?”. Vira quase um crime vaiar o atleta que outrora beijou o escudo do meu time.
Em um futebol totalmente globalizado, onde os clubes já são verdadeiras empresas, os jogadores são, com raras exceções, apenas funcionários do clube. Obvio que querem ganhar títulos, cair nas graças da torcida, ficar marcados na história do clube, etc. Mas é verdade também que ele deseja ir para a Europa, ou que em uma temporada de altos e baixo ele pode se transferir para uma equipe rival, seja local ou uma adversário tradicional.
Um exemplo recente é Paolo Guerrero. Principal jogador na conquista do título mundial do Corinthians em 2012, o jogador rapidamente se tornou a principal estrela do clube paulista. Tinhas as características que a torcida corintiana mais venera, além de ser um excelente atacante. Foi um dos poucos poupados da preguiçosa temporada em 2013, e em 2014 era o nome do time que terminou com uma vaga na libertadores após ter a melhor campanha do 2° turno naquele ano (levando uma bola de prata, inclusive). Vem 2015 e o jogador opta, após desgastante negociação para renovar o seu contrato, ir para o Flamengo. O clube não levou nada, uma vez que o jogador já estava livre para assinar com qualquer time. A torcida o chamou de judas, queimou sua camisa, não era raro ver montagens gol do mundial com o rosto substituído pela de algum outro atleta. Situações muito similares ocorreram com Van Persie no Arsenal, Torres no Liverpool. Lá na Inglaterra é lindo, torcida de verdade. No Brasil, mesas de debate sempre cobram a gratidão eterna.
Ora, respeito o torcedor tem que ter por quem veste a camisa do seu time. Quando o tal ex vem ao meu estádio, eu quero mais é que ele vá para o inferno. Gozou do amor da torcida, agora sinta o peso de enfrentá-la.
Isso vale pra qualquer time. Imagine que o Dudu, principal jogador do Palmeiras desde 2015, resolve ir para o Santos ou qualquer outro rival. Quando ele for ao Allianz, palmeirense nenhum teria a obrigação de recordar os títulos do passado ou viver em uma nostalgia eterna.
Aplausos só para quem veste a minha camisa. Aos demais, obrigado por ontem e passar bem.
