A altura da voz ao me responder "boa noite" destoava da noite tranquila, sem trânsito e de garoa fina. O que a colocava em contexto era a sua simpatia e os seus mais de dois metros acomodados meio sem jeito no banco do motorista. 15 anos levando e buscando crianças para a escola, lhe conferiram um tom de voz que sobrevivesse à elas, presumi. A inocência que imaginava que ele convivia ao lidar com crianças logo foi ficando pelo caminho e as verdades iam entrando uma a uma, quarteirão a quarteirão pelos meus ouvidos, como nos dias que ele passava pelas ruas apanhando os estudantes. A direção era a menor da suas funções comparada à conversa com os pais de um aluno que saia correndo assim que a van estacionava em frente à escola; E não era para dentro da sala de aula. Da turminha que levava uma caixa de som para dentro da perua para que os funks ali entoados chegassem até as pessoas na rua também. Ou ainda das garotas que o usavam para ir até a porta da escola e de lá seguiam por conta própria para qualquer lugar. Aos poucos as musiquinhas da perua foram perdendo vozes no coral para os que preferiam os fones conectados aos smartphones. As usuais conversas foram se tornando digitadas. O jogo de ler a placa dos carros no trânsito ficou muito ingênuo perto dos gráficos elaborados dos jogos portáteis. Pelo espelho retrovisor, viu muitas crianças crescerem, perderem a ingenuidade e a magia da infância. Perdeu junto.

15 anos de transporte escolar.
O fizeram ter duas certezas:
1. Meninas dão infinitamente mais trabalho do que meninos.
2. Pais e filhos que conversam e se respeitam são felizes.

Agora, Uber.
Vê como um prêmio dirigir em silêncio.
Deu uma gargalhada quando pedi para para atrás da van escolar estacionada na porta de casa. E por costume, ficou olhando para ter a certeza que entraria em casa e não fugiria do meu destino final.

Nos despedimos.

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