Carreira no design

Da periferia ao Vale do Silício.

Como saí de um bairro pobre e perigoso às maiores empresas de design do mundo.

Minha jornada começou na periferia de Curitiba.

Venho de uma família classe média baixa: minha mãe, uma professora da rede pública e meu pai, um metalúrgico retirante do nordeste.

Eles me deram a melhor educação possível com os escassos recursos pra sustentar uma família em meio a diversas crises econômicas dos anos 80 e 90. Morei durante 25 anos na mesma casa de três cômodos com oito pessoas.

Estudei em escola pública. O único privilégio que tive na vida foi ter uma educação familiar voltada à criatividade. Desde cedo, meus pais me incentivaram a explorar meu lado direito do cérebro.

Até hoje, na casa deles, há registros dos meus desenhos na parede quando criança.

Mesmo estudando em escola pública, a habilidade artística me rendia um certo status na classe. Professores e colegas pediam pra eu criar cartazes, posters, desenhos e era tido como o artista da escola. Eu já estava sendo respeitado como um designer, mesmo sem saber.

Estudar em escola pública e morar na periferia era uma árdua realidade pra quem tinha interesse em artes, design e tecnologia. É comum adolescentes na periferia buscarem por ascensão rápida, procurando por atalhos em áreas não muito convencionais. Conviver com crimes e tráfico de drogas era parte do meu cotidiano naquela época. Aquele papo de ‘trabalhe duro que você vai chegar lá,” não faz muito sentido. Há um senso de urgência e uma enorme falta de oportunidades.

Enquanto demorava uns dois anos pra ganhar um tênis novo, alguns compravam um par de tênis por semana.

Era o fim dos anos 90 e o início da internet no Brasil. Não havia praticamente nenhuma formação pra quem desejasse entrar nesse meio. Era raro, inclusive, encontrar alguém com computador em casa. Internet era artigo de luxo.

Após ter encerrado o ensino médio, não tinha a menor ideia do que faria dali pra frente. Mesmo sem nunca ter trabalhado, sem formação ou perspectiva, não queria seguir o senso comum.

Sabia que era um risco jogar todas minhas fichas numa área ainda desconhecida.

Cresci lendo revistas, livros e principalmente jornais (meus filhos nunca terão ideia do que é um jornal impresso) mas nada era tão divertido quanto perder horas em frente da TV ou no fliperama do boteco da esquina.

Adorava as vinhetas da MTV e sonhava em criar jogos como Street Fighter ou FIFA. Ali nasceu meu interesse pelo universo visual. Detalhe: ainda não tinha tido contato com o mundo online.

Certo dia, vasculhando nos classificados de emprego, percebi que havia uma demanda enorme por Web Designer e Web Master. Pagava-se cerca de 500 reais pra alguém com conhecimentos básicos em Flash e HTML — o que era uma boa grana na época — e não exigiam tanta experiência, visto que o mercado era embrionário.

Não fazia ideia o que diabos era HTML, CSS.. Me parecia coisa de Nerd.

Tive um súbito interesse em aprender tudo aquilo quando percebi que eram mais próximos ao visual do que à lógica.

Aprendi tudo o que podia em poucos meses fazendo cursinhos profissionalizantes estilo Senai.

Literalmente aulas de web eram como cursos de torneiro mecânico dos anos 80 — e confesso que não vejo muita diferença entre as profissões.

Lia fóruns, blogs e revistas sobre internet. Vários deles nem existem mais.

Muita coisa acontecia no cenário mundial naquela época, mas nada relevante chegava aonde eu vivia.

No final de 2002, consegui meu primeiro emprego como Web Designer antes de entrar na faculdade de Desenho Industrial.

Por ter dedicado tanto tempo aprendendo ferramentas, tinha conhecimento técnico maior do que alguns professores, afinal, eu já estava no mercado mesmo antes de iniciar os estudos teóricos.

Criar sites no inicio dos anos 2000 era algo pitoresco. Meu portfolio era bizarramente popular essa época.

Me formar em design não significou muita coisa pra minha vida. Sempre fui um aluno nota 7. Faculdade foi positivo pra construir meu primeiro network — pessoas com as quais tenho contato até hoje, mas mercadologicamente, adicionou muito pouco ao meu repertório.

Faculdades são uma mistureba de teorias impraticáveis, conceitos artísticos vagos, professores hippies e muita gente querendo transar e fumar maconha — não há nada de errado nisso, mas meu foco era outro.

Isso me fez decidir entre trabalhar ou estudar, visto que meu salário na época, uns 600 reais, era insuficiente para pagar os custos da faculdade, e não percebia muita vantagem nas aulas sobre Semiótica e Gestalt. Muitas vezes, cansado do trabalho, tirava boas sonecas enquanto discutiam sobre a hermenêutica na proporção áurea da psicanálise do design.

Tirei um ano “sabático” da sala de aula. E foi um dos melhores momentos da minha carreira. Mesmo sem uma diretriz, o mercado evoluía a passos lentos.

Anos depois voltei à faculdade de design gráfico por desencargo de consciência — e por uma forte insistência dos meus pais.

Odiava aquilo. Pegava NOVE ônibus por dia. Três até o trabalho, mais três até a faculdade e três pra retornar pra casa. Acordava às 6:30 AM e dormia às 2:00AM. Enquanto via colegas desfilando com carrões, trabalhando em empregos mais prósperos, me questionava se o design digital teria futuro no Brasil e se todo aquele esforço valeria a pena.

Eram poucas agências, clientes imaturos. Não que hoje tenha mudado muita coisa…

Pensei que devia ter estudado marketing, engenharia ou publicidade. Eram profissões glamurosas, com prêmios e festivais cheios de pessoas bonitas.

Sempre sonhei em trabalhar em agências com mesas de sinuca, lanches gourmets e gente descolada.

Morar com a família na periferia significava compartilhar cômodos, roupas, eletrodomésticos e, inclusive, o computador. Eu tinha todos os requisitos pra desistir. Mesmo finalmente empregado, demorei uns cinco anos pra conseguir comprar meu primeiro computador pessoal. Os mais novos não fazem ideia do que é depender de uma internet discada num pentium 100.

Enfim, concluir a faculdade de design me rendeu uma enorme dívida e alguns anos na lista negra do Serasa.

Com o passar do tempo, fui ganhando mais experiência, o mercado foi amadurecendo. Profissionais digitais enfim ganhavam relevância. O online estava ultrapassado o offline.

Em 2010, fui convidado pra trabalhar na agência Gringo em São Paulo, do supercriativo André Matarazzo. Ele havia morado por anos na Europa e retornou ao Brasil com uma abordagem totalmente diferente pra época. Foi uma grande quebra de paradigma no mercado nacional. Tudo que a Gringo criava era incrível! André era um gênio da criatividade e merecia mais reconhecimento no Brasil.

2002–2020

Ao mesmo tempo que minha carreira decolou, comecei a enfrentar dilemas que até hoje afetam os designers. Não sabia que tipo de profissional eu era.

Nessa época surgiam as primeiras discussões sobre UX e Product Design. A agência HUGE, até então uma das maiores do mundo, abriu seu primeiro escritório no Brasil. Recebi o convite do mestre Felipe Memória pra ser o primeiro diretor de arte da agência. Felipe é para o design o que o Tom Jobim foi pra música.

Arrumei minhas malas e me mudei pro Rio de Janeiro. Foi o divisor de águas da minha carreira.

Três anos depois voltei pra Curitiba pra trabalhar com o mega empreendedor Flávio Augusto da Silva — que dispensa apresentações.

Ele havia iniciado alguns empreendimentos digitais e fui um dos responsáveis por criar a plataforma do meusucesso.com. Flávio talvez seja o líder mais inspirador com quem trabalhei.

André Matarazzo, o Criativo — Felipe Memória, o Professor —Flávio Augusto, a Inspiração

Num intervalo de seis anos, tive o prazer de conviver e trabalhar com três ícones do mercado nacional.

Senti que era a hora de voar mais alto. Alguns dos meus colegas e mentores estavam trabalhando nos EUA. Organizei minha vida pra iniciar uma carreira internacional. Fui pra HUGE no escritório de Washington DC.

Meu primeiro evento de design em Washington, DC

Um novo país, outra cultura, neve, frio, inglês nível Joel Santana e mesmo assim cai no maior projeto da agência. Fizemos o redesign da experiência mobile do USA Today durante meses dentro do escritório do cliente. Foi uma descarga de adrenalina. Nunca havia tido uma experiência tão rica em design, planejamento e estratégia.

Ali comecei a entender a filosofia de trabalho dos americanos. Conheci pessoas incríveis, com uma bagagem sobre internet e business a qual nunca tinha visto no Brasil.

Sempre sonhei em trabalhar no Vale do Silício. Era um objetivo intangível que estava se tornando realidade. Havia passado por tanta coisa na minha vida que pensei: Já que estou aqui, não custa dar mais esse passo.

Minha esposa estava grávida do nosso primeiro filho e procurava algo mais desafiador pra minha carreira. Sabia que a responsabilidade como pai limitaria minha disposição em continuar no ritmo frenético de agências.

Participei de processos seletivos e entrevistas com todas as empresas possíveis do Vale.

Quase fui parar na Amazon e no eBay. (A Amazon é em Seattle)

Porém, tinha contato direto com Bryant Chou, co-fundador do Webflow. Certo dia, ele me ligou chamando pra ser o primeiro Brand Designer da empresa. Não pensei duas vezes. Já era um hard user e um entusiasta da plataforma. Era como se uma amante de carros fosse trabalhar na Ferrari.

Com sete meses de gestação do meu filho, mudamos pra San Francisco. Estava novamente trabalhando com gênios da tecnologia. Dessa vez, numa startup do Vale do Silício avaliada em milhões de dólares com faturamento e crescimento exponencial e milhares de usuários pelo mundo. Foram três anos de aprendizado intenso em áreas como growth marketing, brand design, lean process e execução de projetos com foco em retenção e conversão de usuários.

Posso dizer que já percorri o círculo completo como designer.

Trabalhar numa startup do Vale do Silício — Um sonho que se tornou realidade.

Resumindo minha carreira num parágrafo:
Tive mais erros do que acertos. Mais derrotas do que vitórias. Passei por crises de ansiedade, depressão, burn out e síndrome de impostor. Vivi momentos que iam de um extremo a outro. Por vezes pensei em desistir, até em me matar. Depois procurava uma nova saída. Vivia sem um tostão no bolso. Quebrado e falido. Mas, lá no fundo, sempre sabia que haveria um novo amanhã.

Graças à resiliência e força de vontade, aprendi a suportar pressões, analisar minhas virtudes e compreender minhas fraquezas.

Nunca fui o melhor designer das empresas que trabalhei — e não faço questão de ser.

Não sou o mais inteligente, influente, culto, educado ou virtuoso.

Não sei a diferença entre UX e UI — E pra mim está tudo bem.

Mas tenho um talento em nunca desistir e tentar enxergar as coisas por um outro ângulo. E aprendi a navegar em mares onde a maioria não navega.

Além de atuar como designer, também sou empreendedor. Já tive alguns CNPJs, estúdios de design e startups que faliram — escreverei um texto sobre isso um dia — o que reafirma meu histórico de fracassos.

A minha primeira empresa que sobreviveu há mais de cinco anos — milkes.com.br — já anda com suas próprias pernas. Sou orgulhoso do trabalho que minha esposa desempenha como fundadora e diretora de criação.

Esse ano abri minha primeira empresa internacional, a SuperSkills LLC, com foco em clientes internacionais principalmente do Vale do Silício.

Primeira turma do SuperSkills será encerrada esse mês.

No Brasil, SuperSkills será uma comunidade onde irei compartilhar e ensinar um pouco do meu conhecimento acumulado ao longo de quase 20 anos de experiência no mercado, com base nas melhores estratégias, processos e modelos de trabalho que deram certo no Brasil e no mundo.

De startups a grandes empresas. Para designers que querem criar uma carreira internacional, ou freelancers que desejam trabalhar globalmente.

Meu foco agora é ajudar estes profissionais a terem as habilidades certas pra enfrentarem os desafios de um concorrido mercado em constante evolução.
E, óbvio, não passarem por tanto perrengue como eu.

Pra quem começou a carreira pichando os muros da escola, acho que cheguei longe.

Se eu consegui, você também conseguirá.

Written by

Brand Designer — Webflow Expert — São Francisco, Califórnia. www.superskills.com.br

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