Carreira no design

Por que eu não visto a camisa da empresa

Vivemos a época em que pessoas buscam a super produtividade a todo custo, correndo contra o tempo pra alcançar status e valorização profissional. Mas isso tem um preço.

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Sacrificar-se pela carreira tem sido causas de burn-out, stress e depressão

Fiz isso por anos. Porém se tem algo no mercado que me incomoda, é aquela turma workaholic super engajada que coloca a carreira e empresa na qual trabalham como prioridade e esquecem valores primordiais que realmente farão alguém ser bem sucedido na vida.

Esse comportamento influenciado pela cultura motivacional tipo “go hard or go home”, “no pain no gain” é nocivo pra saúde mental de qualquer pessoa — levar o corpo e a mente ao limite não é sustentável a longo prazo e poucos têm condições de seguir tal comportamento.

Dias atrás um amigo disse que, numa entrevista de emprego, o maior pré-requisito pra conquistar a vaga era que o candidato “vestisse a camisa da empresa”. Sorte que ele não conseguiu a colocação.

Convenhamos: no final do dia, queremos apenas pagar os boletos antes do vencimento e conseguir ter um tempo livre pra alguma atividade que não sejam reuniões desnecessárias, fazer ajustes de clientes, lidar com egos e montar apresentações mentirosas que não vão levar a lugar nenhum. Numa organização, somos números — facilmente substituíveis.

Não sou contra quem ama o que faz e dedica-se de corpo e alma ao trabalho. Eu mesmo, muitas vezes, trabalho de 10 a 14 horas por dia, finais de semana e algumas madrugadas. E longe de mim fazer apologia à mediocridade — aquele funcionário reclamão que pula de galho em galho. Acredito que esforço e dedicação são predicados fundamentais pra qualquer profissão.

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Mas há uma grande diferença entre entregar o esperado e se desgastar por incompetência e falta de organização alheia.

Pouco me importa se na mesa estão os mais talentosos, inteligentes ou poderosos. Status e nomenclaturas não são sinônimos de sucesso. No fundo, eles também vivem amargurados e presos aos seus cargos. Mas eles têm a caneta na mão e isso é perigoso.

Empresas e agências, quando mal gerenciadas, acabam gerando um amontoado de processos, tornando-se uma fábrica de castração criativa. Trabalha-se muito, mas trabalha-se errado. Talvez explique o crescente número de pessoas com burn-out, ansiedade e depressão.

“ Designers atrapalham programadores que perturbam os gerentes de projeto que decepcionam os clientes. É uma torre de Babel num jogo onde não há vencedores.”

Mas há um lado positivo — das atividades modernas, a área digital é uma das mais privilegiadas, visto que pode proporcionar oportunidades de trabalho da forma como o profissional desejar.

Nos Estados Unidos é significante o número de empresas que adotam o modelo de trabalho remoto ou contratam profissionais por um tempo pré-determinado. O custo beneficio é alto pra todos. Designers, programadores e afins escolhem o local e horário que desejam trabalhar.

Hoje dou prioridade ao tempo, às relações pessoais e à liberdade criativa. Principalmente depois do nascimento do meu primeiro filho.

Tenho o privilegio de trabalhar em casa, flexibilidade de horas, estabilidade financeira, clientes nos EUA, e ainda consigo tocar meus dois negócios online.

Mas pra isso tive que atravessar o inferno.

Lembro de uma noite de domingo em meados de 2010: recebi a ligação de um respeitável diretor de criação e CEO da agência em que trabalhava, pedindo pra a equipe de criação ir até a agência pra trabalhar em uma apresentação e criação de layouts com o prazo para as 10h da manhã seguinte. Já havia trabalhado sábado inteiro sem descanso. E isso era recorrente. Perdia feriados e inúmeros finais de semana.

Após aquela ligação, pela primeira e única vez na vida, pensei em cometer suicídio. Estava completamente esgotado e nada seria pior do que passar mais uma noite no final de semana naquele escritório.

Ao caminho da agência, caminhando na calçada, coloquei umas das pernas na direção na rua. Esperava que algum veiculo quebrasse ela. Seria o álibi perfeito pra me livrar daquela tensão. Era preferível passar a noite no hospital a ir para a agência.

Enfim, segui firme e forte no meu caminho. Trabalhamos até as 8h da manhã do dia seguinte. Fizemos o que tinha para se fazer. Grande parte da equipe achava aquilo normal. Afinal, estão pagando um bom salário e esta é a agência mais criativa do Brasil, diziam eles.

Não tive feedback sobre a tal apresentação. Me senti como um robô numa linha de produção. Tempos depois, a agência foi vendida. Muitos dos funcionários saíram, tivemos salários e benefícios cortados. Todo aquele martírio pra satisfazer ego do dono da agência havia sido em vão.

Eu não havia aprendido nada e continuei cometendo os mesmo erros durante anos.

Num outro episódio, muitos anos depois, estava numa jornada incessante de 14 horas por dia, mantidos a base de café, Redbull e pizzas na madrugada. Após a apresentação para um grande e famoso empreendedor brasileiro, mal consegui sair da cadeira e quase fui parar no hospital pelo excesso de adrenalina devido à tensão e ritmo frenético de trabalho.

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A busca por reconhecimento pode arruinar sua vida.

Poderia escrever um livro contando todas as historias pitorescas ao longo dos meus 18 anos de carreira. Mas aposto que você também deve ter muita coisa pra contar sobre o caos que é a nossa profissão. Não devo ser o único no planeta que teve chefes babacas, colegas puxa-saco e ambientes hostis de trabalho. Faz parte do jogo.

Não culpo terceiros pela minha situação. Eu me entregava totalmente aos projetos pois acreditava que seria recompensado de alguma maneira. Acreditava na missão e propósito das empresas. Mero engano.

Ganhei uma hérnia de hiato, gastrite crônica, tendinite nos pulsos e cotovelos — após um checkup completo encontraram problemas nas costas, coração e olhos por causa do minha rotina espartana como designer ao longo de vários anos. Mal conseguia dormir, me alimentava mal, estava fora de forma, ansioso, estressado e frequentemente com crises e síndrome de impostor. Muitas vezes me autojulgava como o pior designer do planeta. Aquilo afetava minha vida pessoal. Sentia que estava ficando obsoleto, mas as contas não paravam de chegar.

Do meu ciclo profissional, quase todos recebiam afagos e gratificações. E eu ainda continuava correndo na lama, aguardando o esperado dia em que seria promovido ao novo pica das galáxias do design mundial. Esse dia nunca chegou. Recebi em troca recomendações médicas pedindo pra eu diminuir o ritmo, caso eu quisesse viver saudável dali pra frente.

Tive boas experiencias, fiz grandes amigos e ganhei reconhecimento. Mas grande parte desse reconhecimento deve-se aos meu projetos pessoais. Depender apenas do briefing e da rotina sufocante do dia-a-dia não seria suficiente pra me tirar da mediocridade. Escapar desse status quo profissional foi o grande divisor de águas na minha carreira.

Foi nesse período que um boom de ferramentas digitais surgiu no mercado. Aprender o Webflow foi um marco importante na minha vida. Ali, consegui minha carta de alforria. Poderia fazer meus projetos pessoais sem a necessidade de um programador. O tempo de desenvolvimento de projetos caiu pela metade. Em consequência, meus lucros aumentaram. Estava começando a dar os primeiros passos rumo a uma vida mais produtiva e próspera.

Vestir a camisa foi positivo quando aprendi a captar os benefícios do ambiente corporativo e traçar o meu próprio caminho. Otimizar o tempo e buscar qualidade de vida. Isso não significa que parei de trabalhar duro, no entanto, empreender a carreira não significa se matar de trabalhar pra agradar algum superior.

Hoje eu trabalho Smart ou Lean, como dizem os gringos.

Faço em minutos o que demorava dias. Aprendi habilidades específicas e assertivas que me deram autonomia, liberdade pra me livrar do pesadelo do mundo corporativo e suas falsas expectativas.

Porém, percebi que falhei em muitos aspectos na minha carreira, que me causaram dor, frustração e consequentemente falta de $$$. Se pudesse voltar no tempo, teria dedicado em áreas híbridas como negociação, comunicação e execução em vez de ficar preso no mundinho corriqueiro do design. Além disso, não teria passado tanto perrengue caso soubesse algumas verdades desconsertantes como:

  • Desenvolvimento profissional é consequência do desenvolvimento pessoal;
  • Sucesso do passado não é garantia de sucesso no futuro;
  • Cuidado com utopias;
  • Ninguém é criativo 100% do tempo;
  • Se não te impactar por 5 anos, não perca 5 minutos;
  • Não seja o responsável pelo fracasso alheio;
  • Aprenda a dizer não;

Se você for disciplinado e privilegiar o futuro sem detrimento do presente, você pode mudar a estrutura da realidade a seu favor. Basta dar o primeiro passo.

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Brand Designer — Webflow Expert — São Francisco, Califórnia. www.superskills.com.br

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