Monstros, pedestais e a necessidade de ser comum.

Em dias de mau agouro, como essa notória sexta-feira, minha mente sempre se volta para o horror. Entre as coisas que me amedrontam, além das cruéis realidades políticas, do medo de uma repetição do ano passado, e de alguns livros de Stephen King sobre palhaços e fãs obcecadas, há os verdadeiros monstros.

A palavra monstrum, no latim, significa presságio, prodígio. Algo que se destaca dos demais, que é aberrante e notável. E para mim, essa origem do termo explica a existência de tudo, ou quase tudo, que é monstruoso.

As mídias e mundos ficcionais (olá, Gotham City) glamurizaram a ideia de que os atos monstruosos são cometidos por psicopatas*. Eu discordo, acredito que os atos mais hediondos são cometidos por gente comum que não se vê como comum. Gente comum que se considera além dessas crueldades, melhor do que qualquer assassino, abusador ou criatura perversa. Gente que se vê como “melhor” do que esses vilões icônicos.

Se considerar um prodígio. Acreditar estar acima dos demais. Se julgar por padrões morais acima dos outros. Pense em quantas vezes você ouviu barbaridades sendo feitas em nome do bem maior. Gente que “sabe mais e sabe melhor” justifica facilmente seus atos hediondos. Pessoas que se consideram mais inteligentes, que se julgam “pastores” ou “guias” dos que vêem como menos capazes. É daí que eu acho que vem os verdadeiros antagonistas de nossas narrativas diárias.

Na minha experiência, meus piores atos foram gerados por esse tipo de pensamento. A fé de que eu sempre era o “mocinho” ou a pessoa correta nas situações em que me envolvi me levou aos maiores enganos. A necessidade de me considerar “especial” e não me permitir me enganar ou me perdoar por coisas que eu perdoaria em outras pessoas me induziram a errar mais.

Então, nessa data tão icônica, um pedido a todos: criemos menos monstros. Não é necessário duvidar de si ou se considerar inferior ao resto da humanidade, mas lembremos que todos os maiores tropeços e equívocos foram cometidos por gente tão comum quanto eu e você.

*O termo médico correto segundo colegas da área da Saúde Mental é “Transtorno de comportamento antissocial”. Psicopata e sociopata são ambos partes desse espectro, mas eu entendo o apelo dos termos.*
Agradecimentos especiais à Srta. Fefa e ao Sr. Roderick Usher por ideias sem as quais esse texto não existiria.