O Homem de Preto, a Mulher de Branco e a necessidade de escolher novos ídolos

Quando eu tinha 19 anos assisti Johnny e June, um filme que me marcou muito. Desde a infância, criado à base de quadrinhos, RPG, filmes da Sessão da Tarde e fantasias nerds variadas, eu sempre me inspirei nos personagens heróicos abnegados e altruístas. Cash não era tão parecido com eles, à primeira vista. Viciado em drogas. Perdido na vida. Obcecado por uma mulher que acabara de conhecer. Um herói trágico, talvez, mas não um cavaleiro de armadura brilhante. Até chegarmos à questão de sua escolha de “fantasia” e à sua iniciativa de tocar numa prisão.

Johnny tem uma canção chamada Man In Black. Nela, ao contrário do chiste “pode ser que que esteja de preto porque estou indo a um funeral” do filme ele fala sobre como usa preto numa espécie de luto pelo mundo. Ele trajará preto até que todas as injustiças tenham sido corrigidas. Isso caiu como uma luva em um adolescente que ainda achava que era possível salvar o mundo e carregar todo o peso em suas costas. Eu coloquei Man In Black(a canção) como parte do meu perfil em alguns blogs e redes sociais. Comecei a ouvir Cash aos montes, comprei a biografia em quadrinhos e outra coisas típicas de um fã deslumbrado.

Na década seguinte passei por muitas coisas. Surtos psicóticos de pessoas próximas, ideais frustrados, autocomiseração constante, episódios depressivos. Minha vontade de salvar o mundo de forma cega e idealizada esmoreceu consideravelmente. Comecei a notar que não dá para salvar o mundo sem cuidar de si. Uma psicóloga que me atendeu por um curto período, vários amigos e as pessoas que me toleraram em relacionamentos românticos nesse meio tempo contribuíram muito. Percebi, finalmente,que a autopreservação deveria ser uma meta.

Final de 2016. Minha vida teve uma reviravolta causada principalmente pelo meu descaso comigo e com pessoas próximas, pela esperança mal depositada de que trabalhar furiosamente resolveria todos os meus problemas, e pela negligência generalizada quanto à minha saúde mental. Eu cheguei ao pior estado em que jamais estive. A ideia de suicídio chegou a ficar um tempo na cabeça e graças a algumas pessoas maravilhosas (Angelo e Elenice, eu devo demais a vocês) eu aguentei a barra.

Comecei 2017 tentando me recuperar e dar rumo na vida. Novas experiências, novos projetos e foi então que eu finalmente comecei a ler um dos livros que mudou minha vida. Na capa, uma mulher com o peito pintado de branco, com um passado como estátua viva. Seu olhar é de súplica, de entrega. Sua mensagem é sobre se preocupar menos e pedir mais.

Das muitas coisas que Amanda Palmer me ensinou , uma das mais importantes foi que todos se sentem uma fraude às vezes. Que é natural e legítimo precisar de ajuda. E que nós podemos fazer uma quantidade limitada de coisas, e não só podemos como DEVEMOS esperar que outras pessoas cuidem do resto. Enfim, que não é preciso se esgarçar para que as coisas aconteçam.

Eu, como quase todos nós, fui criado admirando histórias de superação. Assistindo animes sobre heróis que não desanimam jamais. Aprendendo que Amor supera tudo e sempre vence no final. Que a persistência sempre recompensa. Mas ninguém em quase filme nenhum vai te falar “Hey, dá uma relaxada, poupa energia. Fica um dia na cama cuidando de si.” No mundo de velocidade e sucesso obrigatório em que parecemos viver, parece piada a ideia de tirar um dia para se permitir ser ocioso.

Ídolos não são exatamente uma coisa ideal. Colocar alguém num pedestal tende a gerar rupturas quando se descobre erros que todos nós, humanos, cometemos. Mas se vamos abraçar alguém famoso como exemplo, que seja uma pessoa que te faça viver de forma mais saudável e benevolente para si e outras pessoas, e não uma que te sugira auto-flagelação.