Design Living ou A Vida Criativa

“… para morrer para o mundo e vir a nascer de dentro.” Joseph Campbell

Toda ação é um impulso criativo, mas nem todo impulso criativo é uma ação. Há ideias, projetos, desenhos que não chegam a ser uma ação porque constituem um objeto separado da realidade. Se mantidos assim, desconectados da vida, ardem e se apagam como uma chama. A vida criativa é plena e integradora; isoladamente, objetos criativos são desintegrados.

A questão

Métodos de desenhar e implementar inovações são cada vez mais constantes. De forma geral, o Design Thinking (1) ganhou abrangência e hoje é usado em diversas áreas — do design de produtos ao design de serviços, do projeto urbano ao projeto de interiores. Em muitos casos — se não em todos — uma das premissas do processo de Design Thinking é que a abordagem seja integrada, ou seja, que considere e encare os diversos pontos de contato e de interferência sobre o objeto desenhado(2). Essa atitude, no entanto, inaugura uma contradição: como promover uma integração verdadeira se o primeiro ato é justamente a separação entre processo, projeto e objeto? Ou, no melhor dos casos, entre processo de projeto e objeto projetado?

A contradição do termo comum “projeto integrado” fica pendente, ainda que o processo capture o melhor das metodologias disponíveis: participação dos atores envolvidos (“stakeholders”), dinâmicas livres de “ideação”, experiências de “prototipagem”, ciclos contínuos de sonhar / projetar / executar / avaliar — e, em alguns casos, celebrar. Há muitas variantes, mas todas partem, em maior ou menor nível, da separação projeto vs. objeto.

Por processo de projeto podemos compreender os sujeitos envolvidos, os produtos (projetos) de suas atividades no âmbito desse processo e a comunicação desses produtos à comunidade envolvida. Por objeto, o lugar, instituição, comunidade, território, serviço que se pretende intervir, seja qual for o nível dessa intervenção. Dessa forma, temos a seguinte relação:

Processo (R) Objeto

sendo:

Processo = sujeitos + projetos + comunicação interna (onde os sujeitos são atores — projetistas e os projetos as ferramentas)

(R) = relações entre Processo e Objeto (políticas, econômicas, operacionais, comunicativas externas etc)

Objeto = território (como conjunto de relações de elementos em determinado momento e local)

Como se vê, essas duas partes inicialmente separadas — conectadas por um subproduto, o projeto, e suas implicações nos diversos campos (R) — são perfeitamente compatíveis e podem ser encaradas como uma unidade: sujeitos agindo no território.

Por agir entende-se viver, habitar, construir, experienciar (4). A relação (R), antes necessária e fonte de inúmeros problemas, perde sentido e desaparece desse contexto. Resta a necessidade de uma nova metodologia de ação, de experiência, de novos hábitos — que, como veremos, fecha um circuito de permanente transformação duplamente consciente: seja por parte dos sujeitos, transformados em artífices(3), seja do território, transformado pela colaboração dos seus artífices e transformador desses mesmos sujeitos. O “projeto” agora é hábito e, junto de seu “objeto”, integradores.

Objeto e sujeito já não fazem mais sentido. Trata-se de vida; de vida criativa.

Essa operação de fusão metodológica de dois elementos separados pelo costume e pela prática — mas nunca unidos na realidade — nos levou brincar com um termo de contraposição ao Design Thinking: o Design Living — ou, em bom português, Vida Criativa.

Uma solução

Como toda atividade criativa, a vida também implica em trabalhar com a possibilidade de acertos e erros — que, compreendidos a partir de uma dimensão temporal distanciada perdem o sentido de deslocamento (erro) ou encaixe (acerto) diante de uma certa normalidade.

No sentido evolucionário (5), a repercussão gerada é parte do processo de evolução, não havendo julgamento de certo e errado: exatamente o que acontece num laboratório, onde o pesquisador busca, através de erros e acertos, uma conclusão para a questão colocada. Os erros a elucidam tanto quanto os acertos.

A partir dessa compreensão, chamamos a aplicação prática dessa nova metodologia — Design Living — de INCRIATÓRIO, um Laboratório para uma Vida Criativa. Esse neologismo é formado por três partes:

“ IN “ : é um prefixo de interiorização ou individuação e, portanto, coloca o fluxo de transformação como o motor de um novo ciclo evolucionário. Segundo o dicionário Houaiss: “in- 2) do pref. e prep. lat. in- ’em, a, sobre; superposição; aproximação; transformação’, de uma raiz i.-e. *en ‘no interior; em’, ver 2en; tem, em port., valor intensivo, de movimento para dentro, de repouso, de permanência, de direção, de tendência;”

“ CRIA “ : elemento que estabelece esse fluxo pela via criativa, reorganizando informações e propondo inovações positivas. No mesmo Houaiss: “ antepositivo, do v.lat. creo, as, avi, creatum, creare ‘produzir, fazer brotar, fazer aumentar, fazer crescer, criar’, conexo com o v.lat. cresco ‘crescer’.

“ TÓRIO “ : sufixo que remete tanto às especificidades temporais e espaciais da ação criativa, quanto a de seu caráter laboratorial, ou seja, o lugar por excelência onde o labor e a experiência se passam. Neste caso, entendemos ir além de lugar, estendendo essa noção para uma condição de vida.

Esses três elementos, ao se juntarem e formarem um quarto e novo conceito, oferecem uma metodologia de ação — ou, mais especificamente, de colaboração criativa.

De todo modo, essa colaboração não é o fim em si; ela é a ferramenta que nos ajuda a cumprir nosso papel criativo no fluxo evolucionário do sistema vivo do qual fazemos parte. Assim, ela é cíclica, não como um circulo que se fecha, mas como um vórtex que se desenvolve nas formas orgânicas: nasce, cresce, frutifica e morre para nascer de novo, com todos os infinitos intermédios desse ciclo.

Esse movimento é necessário para que se possa deixar a linha da não-ação, da uniformidade e da inércia. Ele deve ser direcionado para que não assuma um movimento devolucionário, cujo destino é o encerramento de toda atividade; mas sim de crescimento, de evolução, de eficiência.

Nossa proposta se inicia na individuação para evitar que termine nela. O objetivo é a unificação do ser com o fluxo universal, como um fruto que se desapega da árvore. É o que significa a imagem do INCRIATÓRIO: uma forma natural que por um movimento em espiral produz um fruto; esse movimento está inserido numa realidade, a do sujeito-ator, o artífice inquieto. O fruto se liberta a partir do movimento implosivo. (6)

Logotipo do Incriatório

É a Escolha Fatídica de Schauberger: ou optamos pela vida ou pela morte. O primeiro caso, que é o que nos interessa, se desenvolve por meio do que ele chama de Eco-Tecnologia, um sistema de abundância (Super-Econômico nas suas palavras) onde há um acréscimo exponencial de magnitudes e onde a eficiência sempre devolve ganhos para o sistema — o fruto, por exemplo. Sua ordem definitiva é a Ectropia (oposta à Entropia — ver notas 5 e 6).

Diagrama da Escolha Fatídica de Schauberger (fonte: "Living Energies" de Callum Coats)

Fundamentos

A prática dessa metodologia nos mostrou que alguns princípios são muito importantes.

- “Essencialismo” — entre aspas porque não tem relação direta com as correntes filosóficas homônimas. Significa que devemos dar prioridade ao que é essencial, importando que o primeiro movimento a ser realizado é o de identificar que elementos essenciais estão em jogo. Desse movimento decorrem os próximos fundamentos.

- Natureza: o que chamamos de Natureza, ou seja, todos os elementos, seres e fluxos que formam o mundo, é resultado de um evolução infinita que, ao fim, possibilitou a realidade atual de cada um. É um livro de aprendizado sem fim, onde todas as essências estão à disposição. Na Terra, o recurso básico que conecta toda Natureza é a Água: ela é a essência mãe, portadora de toda informação, elo fundamental de toda rede planetária. Nela influi o Sol e as energias cósmicas (que provém do Espaço Sideral) e, dessa união, de certa forma mágica e misteriosa, concretiza-se a vida por meio da Terra. A todo esse conjunto de fluxos e energia chamamos Natureza.

Multifuncionalidade: da observação da Natureza e da potencialidade concentrada nas essências, percebe-se a invariável multifuncionalidade dos elementos naturais — não há qualquer elemento cumprindo somente um papel. Estratégia de evolução do Universo porque garante o menor consumo de recursos para uma maior produção de abundância. Somente o ser humano cria com objetivo de atingir uma só função e essa tendência mostrou-se desastrosa.

Alto Impacto Positivo: como resultado dos últimos três "passos", observamos que ações criativas vão além do "baixo impacto" e tem o poder regenerativo ou de gerar impacto positivo. A presença humana passa a ser benéfica e desejada.

Notas:

(1) Design Thinking pode ser definido como conjunto de métodos e processos para abordar problemas, relacionados à aquisição de informações, análise de conhecimento e propostas de soluções (Wikipedia).

(2) Desenho, no sentido mais profundo da palavra, significa dar um propósito a algo — um desígnio. Com o tempo, no português, perdemos essa origem e ficamos somente com o significado mais corriqueiro, da rabisco ou composição gráfica. No inglês, por outro lado, manteve-se o sentido na palavra “design”, que tem a mesma origem latina e que hoje importamos para se referir àqueles objetos que tem um desenho diferenciado. Na sua língua original, no entanto, a palavra “design” é muito mais ampla que isso, se aproximando do que chamamos de projeto. O nosso desenhar corriqueiro tem outra palavra, o “draw”. Na concepção original, desenhar algo é, portanto, conjugar a complexidade de um projeto numa solução íntegra e proposital, expressa na maioria das vezes, mas não necessariamente, de forma gráfica.

(3) SENNET, Richard. O Artífice.

(4) Ver “Construir, habitar, pensar” de Heidegger.

(5) Ou Ectrópico, como denomina Viktor Schauberger, ou Sintrópico, como defende Ernst Gostch.

(6) As noções de movimento, de vórtex, de evolução e devolução, de implosão etc podem ser estudados mais a fundo nas ideias e aplicações desenvolvidas por Viktor Schauberger e expostas no livro “Living Energies” de Callum Coats.