Reflexões sobre uma tragédia

1. Não é momento para reflexões. É hora de agir.

2. É hora de agir para remediar, para ajudar, para colaborar, para solidarizar.

3. É hora de agir de forma inteligente, o que pressupõe reflexão.

3.1. Doações são válidas. Doemos roupas, água, comida, inteligência, experiência, músculos etc.

3.1.1. Mas doemos, sobretudo, dignidade e futuro.

3.1.1.1. Dignidade: quem deve estar de joelhos, pedindo perdão, correndo atrás de todos os prejuízos e pagando por tudo isso, são os responsáveis.

3.1.1.1.1. Quem são os responsáveis? 1. Vale + BHP 2. Governos federal e estadual

3.1.1.1.2. Mas, antes de tudo, Vale + BHP — ou melhor, seus diretores e acionistas. O povo brasileiro e o povo mineiro são solidários por meio da incompetência dos governos que elegeram.

3.1.1.2. Futuro: as regiões afetadas são ricas de passado.

3.1.1.2.1. O passado espacializado foi destruído.

3.1.1.2.2. O passado na memória das pessoas sobreviverá. Ele deve ser suportado.

3.1.1.2.3. O futuro é um passo a frente, é positivo, é uma oportunidade gerada pela tragédia.

3.1.1.2.4. O ambiente, as cidades, as roças, tudo pode ser reconstruído dentro das seguintes perspectivas:

3.1.1.2.4.1. Os desafios e valores que estão sendo construídos no século XXI.

3.1.1.2.4.2. A regeneração deve ter Alto Impacto Positivo, ou seja, deve ser mais eficaz, duradoura e abrangente do que a destruição.

3.1.1.2.4.2.1. Deve ser construída a partir da comunidade, ou seja, das suas pessoas, valores, ritmos, sonhos, aptidões. A partir da sua vida.

3.1.1.2.4.2.2. Se você quer colaborar, vá e viva com eles. De São Paulo, do Rio de Janeiro ou de Itajubá você será um demagogo bem intencionado, na melhor das hipóteses.

3.1.1.2.4.2.3. A não ser que o seu conselho seja pedido por eles.

3.2. A reflexão não pode impedir a ação. E vice-versa.

3.2.1. Vamos começar pela ação.

3.2.2. A reflexão é a melhor companheira da ação.

4. É hora de fortalecer.

4.1. De fortalecer as pessoas, a natureza, as comunidades: os territórios.

4.2. E fortalecer os Comitês de Bacia, como fórum de interação e decisão entre as pessoas no cuidado com a água.

4.2.1. Considerando a água como elo fundamental entre todas as coisas deste planeta.

4.2.2. É hora de dar ao Comitês de Bacia uma dimensão de grandeza, uma estrutura colaborativa e prioridade na alocação de recursos para gestão territorial.

5. É hora de refundar Minas Gerais. E o mundo.

5.1. O mineiro, amado pelos corações e estômagos de todo Brasil, de todo Mundo.

5.2. Mal tratado desde sua fundação, o mineiro resiste pelas vias da solidariedade (as conexões humanas verdadeiras), da simplicidade, da esperança.

5.2.1. A esperança está soterrada. Ela vai rebrotar: nossa refundação.

5.2.2. Libertas Quæ Sera Tamen: Liberdade Ainda que Tardia. É hora de dar sentido a essas palavras.

5.2.3. Liberdade como autonomia; Liberdade como interconexão e interdependência para o positivo. Liberdade.

5.3. #somostodosbentorodrigues #somostodosminasgerais #somostodomundo

6. É hora de reconhecer o verdadeiro lugar da Natureza

6.1. Somos Natureza. O que construimos também deveria ser.

6.2. Temos agido de forma agressiva e competitiva, como adolescentes inseguros.

6.3. Temos julgado a Natureza, um equívoco. Ela não tem prêmios e punições: ela tem consequências.

6.4. Não podemos subestimar o poder positivo da Natureza.

6.4.1. Flora (vegetação), fauna (animais), solo e água são parte de UM sistema. Isso nos inclui.

6.4.2. Trabalhar com esses elementos é mais barato, mais eficaz, mais eficiente, mais inclusivo, mais positivo, enfim.

7. É hora de se aprofundar

7.1. Para que qualquer coisa positiva aconteça no Brasil de forma contundente, é preciso que abandonemos a superficialidade.

7.2. A superficialidade é um problema crônico; se não for superado, todo fruto estará envenenado.

7.3. Sim, isso significa mais educação, mas mais educação de qualidade, inovadora, inter- trans- multidisciplinar, integrada, holística — enfim, educação para o nosso tempo.

7.4. Sim, isso também significa digerir essa bucha chamada Política: interiorizá-la, processá-la e transformá-la para assimilá-la em nossa vida real.

7.5. Mas isso também implica em olhar mais profundamente nos olhos dos diferentes, inclusive (e principalmente) de si próprio.

7.6. Significa colocar a ciência para trabalhar em conjunto com os políticos, e ambos em conjunto com as comunidades. Na verdade, ambos a serviço das comunidades, ou seja, as pessoas.

7.7. Significa deixar o confortável papel de idiotas.

7.7.1. Deixar de ignorar as famigeradas externalidades negativas, ou seja, aqueles custos inerentes à produção de um produto que não são contabilizados, mas distribuídos externamente — em forma de poluição, envenenamento, doenças, extinção de espécies etc. Ou de lama.

7.8. Significa repensar, redesenhar e refazer nossos processos cotidianos: o respirar, o comer, o comunicar, o sentir, o trocar.

7.8.1. Isso inclui o consumir e, por aí, o materialismo (essa “compulsão por preencher vazios emocionais e espirituais com materialidade”).

7.8.2. E esse refazer deverá ser contínuo, humildes tentativas dentro de uma experiência enorme — planetária — chamada Terra.

8. É hora de dizer adeus a Prometeu e sua turma

8.1. A história de Prometeu e Pandora simboliza, entre outras coisas, a dificuldade do homem em lidar com a tecnologia.

8.1.1. Quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta, ela vira uma prisão.

8.2. A tecnologia é uma ferramenta, e não um objetivo.

8.2.1. Isso inclui computadores, celular, Facebuques, ZapZaps, automóveis e até bombas atômicas e a mineração — e suas barragens, seus minerodutos etc.

8.3. Toda tecnologia deve servir para a positividade do sistema todo, do Planeta. Ela não serve a si própria.

8.4. Nunca é demais: não se evita prejuízos, se constrói benefícios — um pouco além do velho é melhor prevenir que remediar.

9. É hora de uma mitogênese

9.1. Desenvolver um conjunto simbólico que:

9.1.1 Nos coloque diante do mistério da vida;

9.1.2 Dê valores planetários às comunidades e valores comunitários ao planeta — nos una como espécie e una nossa espécie ao planeta.

9.1.3 Nos ajude a percorrer essa vida — nascer, crescer, construir e morrer — com sentido, com dignidade, com presença. Com presença plena, acima de tudo.

10. É hora de ficar online com o mundo real, usando todas as ferramentas possíveis, implicando-se nessa tarefa até o fundo da alma, do corpo, da mente, do espírito.

11. Talvez não seja o momento de falar de uma só tragédia, mas de todas as tragédias que produzimos, aceitamos, convivemos, contribuimos, escondemos.

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