Eu tive um sonho

Ah, mas sonhos teimam em deixar marcas…

Tive um sonho em que eu beijava alguém. Provavelmente um homem. Falo “provavelmente” porque não lembro direito dos detalhes. Porque já são sete da noite, ou seja, faz quase um dia que isso aconteceu. Entretanto, tenho a impressão de que gostava do beijo, mas ficava apreensivo. Até que eu via um texto (uma mensagem, talvez) escrito pela pessoa, em que ele dizia que havia gostado muito de ter me beijado e que queria “repetir a experiência”.

Não sei exatamente porque estou relatando isso agora. Estou no ônibus, voltando da faculdade para minha cidade a cinquenta quilômetros, em uma viagem que vai durar uma hora. O assento não tem encosto para minha cabeça, e ela balança enquanto balança o ônibus. Mas acho que esse desejo tem a ver com a sensação que às vezes tenho de, enquanto estou sonhando, saber o que está acontecendo. E como eu nunca beijei, o fato de alguém ter dito que meu beijo era bom havia me deixado, em plena madrugada onírica, com sensações que eu precisava registrar. Sensações de felicidade. E alívio.

Alívio porque o tema tem sido uma espécie de constante nos últimos tempos, ao contrário de boa parte de minha adolescência, quando eu possuía a filosofia de “tanto faz como tanto fez”. Até hoje, na verdade, tenho uma paciência que as pessoas mais afogueadas achariam incomum. Mas pelo menos persigo mais os tais dos crushes (quando digo “mais” digo uma vez a cada dois meses, o que já é muito comparado ao zero de antes). Ainda assim, continuo um pouco diferente das outras pessoas “da minha geração”. Me pergunto se não há um quê de problemático em uma geração tão aficionada pelo “primeiro beijo”, pela “primeira vez”. Ainda sou romântico (ou seria trouxa?). Ainda idealizo todos esses inícios, me imagino embaixo de uma árvore abraçado a ele, ou após um jantar (não necessariamente romântico), ou após tomar um banho de chuva (um banho de chuvaaaa, ai ai ai ai ai). No fim das contas, sempre um momento calmo, um momento a sós. No sonho, por outro lado, o cenário era uma festa — algo mais próximo das possibilidades reais, diga-se de passagem. Era um sonho, porém.

Não beijei ainda, ainda não sei se o faço bem, ainda não dei o passo primeiro em direção ao grupo majoritário (posso chamar assim?) dessa geração. Mas, quem sabe? Só o real poderá me dizer algo concreto. Enquanto isso, fecho os olhos, sinto o vento bater no meu rosto pela janela do ônibus, e tento não dormir. Tento, na verdade, lembrar do rosto do homem que eu beijava, para ver se, pelo menos no sonho, soube escolher bem a pessoa que dividiria comigo esse dito “momento inesquecível”.