Chove

Três toques no celular dela, maldita Helena, vou ligar de novo;

HELENA ME ATENDA! Não gosto disso, algo que me irrita mais que a voz do meu professor de Ecologia é não ser atendida. Tenho que tentar mais uma vez, porque não é possível que ela esteja me ignorando.

QUATRO TOQUES! Ó, meus irmãos, farei chover gelo nela, Helena sempre faz isso, penso que é proposital, só para me irritar, sério…

Não há poesia que me acalme agora. Acho que vou desligar o celular, pra começar o gelo, aliás, quem “dá gelo” hoje em dia? Me sentindo minha mãe, que usa “brasa” de vez em quando. De ponto em ponto não consigo deixar de olhar pro celular, esperando que ela me ligue, e se eu estivesse precisando de ajuda? Ok, eu ligaria pra polícia primeiro, mas E SE eu tivesse que ignorar a Gisele, que, hora ou outra, vai surgir no ônibus toda ensopada, igual uma galinha molhada? A polícia provavelmente não fingiria ter assuntos importantes comigo.

Não gosto de ficar ouvindo o barulho da discagem, por isso dou “toques”, mas o que eu queria era tocar a cara da Helena, mas bem forte e de punho fechado. Pior coisa de morar nessa Cidade é o engarrafamento, em dia de chuva ele é quase que certo, se não tiver um engarrafamento monstruoso num dia de chuva acho que o prefeito instaurará um Feriado, “Feriado da Chuva Livre”; engraçadinho do jeito que é o prefeito seria bem possível, vide, temos a “Praça Zebra Malhada” onde pinturas de cavaleiros com armaduras, montados em porcos adornam o gazebo; temos também uma rua, de mão única, chamada “Zezé di Camargo” que, meu Deus que vergonha, faz cruzamento com a “Luciano” por vezes os Cidadãos dão informação de tal maneira: “É no fim da ‘Zé Camargo’, cruzamento com a ‘Luciano’”. Nem sei se é o prefeito, mas acho que ele se diverte a beça com isso, pelo menos sempre está vermelho de tanto rir, nosso enxundioso prefeito. Procurei sinônimos pra gordo, tenho que adimitir.

Gisele subiu no ônibus e nem veio para o meu lado, me causou um misto de felicidade e curiosidade, mas agora não posso tratar de problemas alheios, tenho coisa mais importante a fazer.

Se chover um pouco mais eu compro um bote. Passamos pela “Estrada Bojunga” e agora faltam apenas três pontos pro meu ponto, acho que dá pra conversar com a Gisele e quando começar a ficar chato eu apenas descerei.

— Oi Gi! Chega aqui.

Ela não me ouve, o fone não deixa, aceno. Dois pontos. Me levanto e tento trespassar a multidão, percebo que Newton estava quase certo, tento chamar atenção para que ela me veja, mas ela apenas olha para a janela, até porque se ela virasse ficaria de frente com uma moça vestida de rosa chock, o que cegaria qualquer uma. Um ponto. Gisele que fique na “Zona Emo” dela, não to podendo, muitos problemas pra me sujeitar a isso. Desafio Newton uma vez mais e puxo a cordinha. O caminho é estreito e tortuoso, mas consigo chegar até a porta, me jogo contra a chuva e meu celular toca, é Helena, não atendo, ela manda uma mensagem:

Que foi, coisinha?

Ignoro, ligo pra Gisele.

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