Laura

Pensa que já ultrapassou todo modelo do luto de Kübler-Ross: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação. Pobre menina, navega pelas noites buscando um pouco de aconchego em migalhas de um amor que era inteiro, que era dela e que agora se recosta no travesseiro de outra.

Lapidou seu diamante para que outra o levasse, deixou-o perfeito, realmente um trabalho magistral, feito com a destreza de quem ama. Tirou a frieza e a indiferença e trouxe calor e interesse, tirou o olhar morto e trouxe ternura, tirou do “boa noite”, seco e pragmático, e trouxe um “boa noite, dorme bem”, fantástico, surpreendente.

Deu nome ao que sentia, para ela, “amor”, sentimento soberbo, cheio de labaredas, esperançoso, estável e instável, como só o “amor” poderia ser. Nome errado, minha criança, chamasse de outra coisa, "amor” pode ser sentido por uma pessoa só, não é, obrigatoriamente, sinalagmático. “Amor” é abstrato, mas fere a carne, além da alma. Procurei no dicionário, do início ao fim, não achei o que poderia substituir seu sentimento, mas ainda penso que não deveria ter usado “amor”, a palavra fere, queima, descontenta, é dor lancinante, mas só ela conhece a verdade.

Agora foram-se os anéis, dedos não lhe servem para mais nada, segundo ela, foi-se o amor e ficou apenas a dor, a raiva, a saudade, ficou o arrependimento de ter lapidado material, outrora tão bruto, e tê-lo transformado numa peça única. Não vê que os dedos cunharam a peça que amou, sua joia, seu tesouro.

Sente a dor do membro fantasma, sente que algo está faltando, algo que sua joia amputou dela quando se foi, seu “amor” se foi e levou parte dela. Não era a sensação de que ele ainda estava ao lado dela, não, a aceitação já limpara esses pensamentos, apesar do curso do rio, vez ou outra, mudar e águas passadas retornarem a sua morada, mas, conscientemente, ela seguia seu caminho, mesmo lhe faltando algo.

Outro dia ela acordou e o que estava faltando ficou evidente, tinha os olhos grudados de dormir chorando, a boca seca, a cabeça que doía e as mãos de ourives, mas o coração… Esse parecia bater, mas ela duvidava que ele estivesse realmente ali, mas doía como se estivesse.

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