Me acha na lista telefônica, sou o que é um pouco vesgo e muito alto.


Chamada

Eu amo ligações de celular. É um daqueles prazeres antigos como escrever uma carta, comprar um CD físico ou ir numa livraria. Mas é mais uma ação de dar do que de receber, explico, não gosto muito de receber ligações, a situação passiva do telefone me deixa acanhado, gosto e fazer minhas próprias chamadas, de escutar os “tus” dela, e julgar o “Alô” da pessoa do outro lado. Hoje não foi diferente.

O celular já havia vibrado cedo, mas eu estudava então ignorei sem nem olhar quem me ligava, receber ligações tem essa vantagem, o direito de escolha. Coisa que o fazer não tem, afinal, você quer ser atendido, nada deve ser mais importante que seu nome no visor e seu pedido pra falar com a pessoa, é como uma solicitação de amizade, mas que não pode ficar pra depois. O ato de ligar é imediatista.

Liguei pra ela, quatro toques e meio (uma eternidade)— tuuu, tuuu, tuuu, tuuu, tu — sem alô, um oi com mais de um i, acho que isso é um bom sinal. E como estávamos, como havia sido nossos dias, um dia, duas realidades para duas pessoas, é estranho pensar que você não fez parte do dia de uma pessoa que você conhece e queria ter feito parte do seu dia, mas de vários desconhecidos você fez parte, até mesmo desconhecidos seus e da outra pessoa podem ter participado do dia dos dois e eles nem se ligam que isso aconteceu porque não param pra pensar nas pequenas ações deles, ou o motivo é que eles têm mais o que fazer do que tentar estabelecer conexões que não existem e que não estão em seus halls de preocupação. Mas divago.

Sentei no longo banco aqui de casa e fiquei com as nuvens a vista, dia de sol e calor, assunto, acordei cedo para estudar, assunto, ela teve uma noite de muitas séries atrasadas, mais assunto. Todas as coisas eram transformadas em assunto, não que houvesse um maestro orquestrando tudo, as coisas iam acontecendo naturalmente. Levantei e andei pela casa, falamos em todos os cômodos, todos os lugares, todas as janelas e portas foram abertas, assim como todas as possibilidades.

Saudades”. Silêncio. Mississípi. Mississípi. Mississípi. “Sua falta não cabe nas palavras disponíveis no português ou em qualquer língua, é maré baixa sem você, só fico bem quando você me inunda”. Respiração. Sorriso. Como é estranho saber que a pessoa está sorrindo quando não se está olhando pra ela, mas nesse momento eu soube, sem riso, só um sorriso.

Barulho de panelas, barulho de tampa de panela caindo, “Que tá acontecendo?" “Eu fui esquentar meu almoço, quase fiquei sem almoço, ia comer igual no treinamento do BOPE” “Srª Zero Meia?” “Sim, Senhor!” “A Senhora não vai vomitar na sua comida, vai?!” “Para, que nojo”. E riu, depois de sorrir, riu. É bom fazer rir, longe perto, um simples “kkk” pelo Whatsapp, pode não ser uma risada escandalosa, só o simples fato de provocar reação já é satisfatório, boa ou ruim. Mas divago, novamente.

A Despedida é sempre uma dificuldade. Não sei por onde começar, “Então…” vários modos de começar, mas nenhum parece certo, não dá pra ir se afastando e de repente acabou, são necessárias as palavras certas para ir, “Vou ter que desligar”, a pessoa providencia um motivo também, é parte da etiqueta da ligação, se um vai o outro tem que ir também, “Eu já ia almoçar mesmo”. Será que ela já iria começar sua própria Despedida? Aproveitou meu ir e também foi. Manda um abraço pra um, pra dois e pra três. Vamos marcar. Foi bom falar com você. Beijo. Um abraço na sua mãe. Vamos sim. Se eu pudesse falava todo dia. Silêncio. Não mando um beijo, tenho um bloqueio com isso, é como se fosse melhor guardar para quando encontrar a pessoa, como se fosse errado dizer e não o fazer. É melhor fazer e não dizer.

Mas aqui” Não, ela não quer que eu desligue, se quisesse teria desligado primeiro, pra mostrar que realmente já estava indo, ou talvez seja só coisa da minha cabeça. “Vamos marcar mesmo”, quer me ver. Coração a batucar. Data marcada, encontro? Quem sabe. É uma data apenas em que duas pessoas se encontrarão. Pessoas se encontram e se perdem todo o tempo e nós somos os que nos encontraremos. Assunto para outro dia.

Me liga depois”. Ligo, ligo demais pra você, ligo para o seu telefone, seu primeiro dia no estágio, no horário que você não quer mais que eu ligue, ligo pra te acordar ou te acompanhar até o sono, até você não me responder mais, ligo só pra comentar o que tá passando na televisão, para saber sua posição política, se vai dar tempo de tomarmos um suco antes de eu ir embora, pra saber se eu posso subir a rua ou se você só sai 12h naquele dia. Ligo tanto pra saber de você. “Ligo sim, isso é certo”.

Então, tchau. Beijo”

Tchau.