Oração

João Pedro Fraga
Jul 27, 2017 · 3 min read

Fiz uma prece silenciosa para o primeiro deus que me atendesse, pedi que ele me desse um novo coração porque o que eu tinha já estava sucateado, não sentia mais nada, mal conseguia senti-lo bombear sangue pelas minhas veias, queria um modelo novo, um que não tivesse tanta dor. Ajoelhei-me perto da cama e recitei as palavras acreditando que alguém me ouviria. O que pareceram horas, na verdade, eu fui notar depois, foram minutos e então três deuses apareceram.

O primeiro deus que ouviu minha prece vestia um terno marrom, com uma gravata verde oliva, era baixo e corpulento, com óculos redondos e um frondoso bigode. Seus pequenos olhos me fitavam com desejo, mas não os desejos do corpo, era como se visse em mim uma oportunidade. Ele disse que me traria um novo coração em sete dias úteis ou menos, me garantiu, disse ainda que, se eu desse um pouco do meu tempo ele me daria felicidade genuína, fiquei intrigado, mas então perguntei a ele se me restava muito tempo, ele não soube responder, abriu sua pasta e se mostrou pronto para me mostrar alguns gráficos, mas disse apenas que o valor do tempo é relativo, eu respondi que tempo, pra mim, era precioso e despachei esse deus.

O segundo deus, com uma blusa social rosa, alto, grandes olhos verdes e de aliança na mão esquerda tomou a frente. Disse que meu coração estava bom, mas meus olhos precisavam de uma calibrada, segundo ele eu via problema onde não tinha, me falou também que meus ouvidos estavam cheios de cera, por isso eu não escutava de verdade as pessoas e nem a mim mesmo, ofereceu uma revisão geral, nos pés, para que eu parasse de andar nos caminhos errados, nas mãos para não fechá-las para as oportunidades e na boca, para que dissesse o que devia. Pensei em aceitar, não faria mal uma revisão, mas tornei a perguntar qual a chance disso tudo ajudar no meu coração que, de tão fraco, mal senti o bater, ele me disse que nada tinha para coração, talvez uma poção para curar tristeza, mas nenhum novo coração. Mais uma vez dispensei o deus, eu só queria uma coisa, um novo coração, era pedir muito?

Então o terceiro deus apareceu na minha frente, ele não se vestia tão bem quanto os outros dois, eu já havia visto a camisa que ele usava na South, mas ele sentou na beirada da cama e me disse que coração ele não tinha e que isso ninguém poderia me dar, mas ele trazia no bolso algo mais importante, algo que eu poderia fazer com meu coração gasto, quando perguntei o que era e ele sorriu, mexeu no bolso e tirou de lá uma caixinha, igual essas que guardam alianças, o deus estendeu a mão com a caixa e eu a peguei, estudei a caixa por uns cinco segundos e olhei para ele, que me olhava com interesse, então me disse para abrir a caixa. Lentamente a abri, um brilho forte e um calor reconfortante emanavam dela, brilho era tão intenso que me cegou por uns três segundos, então fechei os olhos. Quando abri os olhos novamente me encontrava deitado em minha cama, um raio de sol milimetricamente calculado parecia me dar bom dia, procurei o deus por todos os lados, chamei seu nome, refiz minha prece, mas ele não estava mais ali, se é que já esteve. mas na minha mesa de cabeceira, do lado do abajur, se encontrava uma caixa de anéis, a caixinha de anéis que ele havia me dado, ela estava aberta, mas ao invés de anéis dentro dela ou o algo brilhoso, havia um bilhete com uma frase:

Um novo dia, é isso que pode dar nova vida ao velho coração.

    João Pedro Fraga

    Written by

    Faço desserviços a mim