Praça da Juventude

Quando eu tinha meus oito ou nove anos eu andava muito de bicicleta, dava voltas e mais voltas pela Praça da Juventude, numa corrida contra o tempo que corria na minha cabeça e nada tinha a ver com as outras crianças, em sua maioria, me aprazia me distanciar delas.

Nunca fui um garoto muito convencional, prezava minha bicicleta para ir para longe, como um desbravador solitário pedalando pelas ruas que meus amigos não iam por preguiça, mas o alvo era ficar sozinho mesmo. Sempre pensei melhor assim.

Quando eu tinha tempo, subia o Morro do Hospital, que era o mais alto dos morros perto da minha casa, nos finais das tardes dos finais de semana eu parava minha bicicleta em seu cume e via dezenas de pipas colorindo o céu azul da minha cidade terrosa.

Pipas têm sua própria dança, elas se entrelaçam, sobem, descem e se separam, algumas gostam de companhia, outras querem ir para o alto. Quanto mais alto melhor para elas, ficam lá, opulentas, parecendo observar o que acontece embaixo delas, espezinhando as outras que não conseguem chegar aonde elas chegaram. Pipa não tem muito de egocentrismo, meus caros.

Eu ficava lá, observando a dança, que poderia se tornar em massacre e, uma pipa, que antes dançava livremente pelos céus se tornava uma pipa avoada. Ela perdia o seu rumo, a linha, seu alicerce maior, agora seria ela e o vento, se alguma outra pipa não a capturasse. Muitas pipas voavam por algum tempo, depois caiam em telhados de casas, em árvores, no meio da mata, no rio, algumas eram recuperadas, outras permaneceriam para sempre no limbo, sim, pipas têm limbo também.

Do meu morro eu via a dança, o desespero da busca com vários meninos farejando o rastro que a pipa tinha deixado, ali eu era um observador da ascensão e da queda, me sentia uma Pipa Opulenta, mas agora, vendo de longe, eu estava longe num lugar que eles não iriam, mas não estava mais participando da dança, nunca participei aliás, não era uma das coisas que eu gostava de fazer.

Hoje eu percebo que eu era uma Pipa Avoada, ainda o sou, ninguém vem me procurar, eu caio num lugar distante para poder pensar, me distrair quando o resto fica irritante, se o vento pudesse me levar agora eu cortaria minha linha e ia ao favor dele, até voltar para a Praça onde minha bicicleta foi perdida e a juventude deixada.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.