Man in Black

Eu só uso roupas pretas, com raras exceções em uma calça jeans azul escura. O engraçado é que existe um mito de que “com preto você chama menos atenção”. Ironicamente, depois que eu passei a só usar preto, tenho recebido mais. O problema é que isso aconteça no sentido negativo(?) da coisa, na maior parte do tempo.

Encontrei algumas (várias) pessoas que, ao descobrirem que eu faço Direito, reagem com a frase “Sério? Não parece”. Elas nunca dizem o motivo, mas eu sei que é por causa da roupa e do cabelo um pouco longo (demais). Porque foge ao padrão.

Que fique claro que isso não é uma reclamação da minha parte. Eu não acho ruim as olhadas tortas (tipo um senhor de quase 60 anos que, esse domingo, desceu a rua me olhando incrédulo com uma cara de “ma que porra é essa”), pelo contrário. Acho é engraçado que, em um mundo com tanta coisa maior pra se preocupar, as pessoas ainda encanem com o tipo de roupa que o outro veste.

“Mas existe um protocolo social”, algum incauto poderia argumentar. Pois é, e pra que serve o maldito protocolo? Pra manter o controle, basicamente, já que, se você não se encaixa, as pessoas têm carta branca pra te rejeitarem. É como se você tivesse quebrado uma lei não escrita, cuja pena é a alienação, simplesmente por usar o que você gosta.

E esse é outro problema. Somos criados ouvindo “apenas seja você mesmo”, “aceite quem você é” e coisas do tipo. Pra exemplificar, o Simba só voltou e matou o Scar depois que aceitou que era filho do Mufasa e legítimo herdeiro ao trono. O Luke só encarou o Darth Vader depois de ter aceitado que era o último Jedi, e que tinha que fazer o que tinha que fazer em razão disso, inclusive trazer o pai dele de volta pro lado da luz. Frodo só conseguiu realizar a Demanda do Anel depois de ter aceitado que era um Portador, não pela vontade do Conselho de Elrond, mas porque estava destinado a isso. E aí, quando alguém aceita a pessoa que é e faz o que a faz confortável consigo mesma — seja uma questão estética, comportamental, sexual, de gênero, ou em qualquer âmbito -, a galera geralmente cai matando.

Só em uma nota de parêntese: não estou dizendo que as represálias que alguém sofre por usar determinado tipo de roupa sejam tão ruins quanto as represálias sofridas por questões sexuais ou de gênero, principalmente. Meu ponto é que são ramificações da mesma coisa, que é a expectativa do cumprimento do protocolo social, que, quando não é atendida, enseja represálias de toda sorte (ou azar) e de intensidades variadas. São espectros de intolerância, basicamente.

Arrisco dizer que a represália é tanto maior quanto a expectativa do cumprimento do protocolo social. E o problema está no indivíduo, seja ele quem for? Nem de longe. O problema está na intolerância, e na falha de visão das pessoas. Muitas delas sequer fazem o exercício de pensar: “Isso, que está me incomodando, me afeta diretamente?”. Na imensa maioria das vezes, a resposta é negativa, o que, por sua vez, deveria fazer o pessoal andar com suas vidas normalmente.

Pior ainda é no ambiente profissional, em que isso é extrapolado em níveis além da conta. Se o trabalho exige um uniforme, eu até entendo, mas, se não exige, qual é o problema? Se o indivíduo cumpre o papel dele no trabalho, que independe totalmente de usar sapato ou tênis, calça social ou bermuda, camisa social ou camiseta, o que tem de mais? O protocolo social? A imagem do local de trabalho? Mas e se a natureza do serviço prestado independe da imagem?

E creio que esse é meu ponto. Enquanto não acabarmos com o protocolo social, que só existe pra entristecer pessoas e legitimar a exclusão e a discórdia, a tolerância deve ser praticada, sendo que a própria palavra “tolerância” pressupõe algo que vá de encontro a nossas crenças, opiniões e gostos. Não peço, como nunca pedi, pra ninguém aceitar nada e dizer que gosta do que não gosta. Pra resumir o que eu quero dizer: se você segue fielmente o padrão, parabéns! Só não vá encher o saco de quem não fez nada pra você.