Sobre seguir em frente

And even though it all went wrong / I’ll stand before the Lord of Song / With nothing on my tongue but Hallelujah

Sim, eu gosto dessa música do Leonard Cohen. Talvez seja síndrome de Estocolmo, já que a ouvi sendo tocada em toda parte, mas enfim… Guilty pleasure.

Eis que estava eu, curtindo a música (bad), até que chegou no trecho destacado, que, em tradução livre, é algo como “E mesmo que tudo tenha dado errado / Eu ficarei diante do Senhor da Canção / Com nada na minha língua senão Aleluia”. Isso me fez pensar.

As coisas dão errado. Mas por que a gente continua? Por que a gente insiste? Às vezes o emprego não vai bem, às vezes são os estudos, às vezes é um relacionamento, uma amizade, um projeto pessoal, qualquer coisa… E por que a gente continua?

Em parte, eu diria que é por medo do desconhecido (muito natural, por sinal). “E se eu largar isso e o outro negócio for muito ruim? Muito pior?”. Em casos mais graves, as pessoas podem até se recusar a crer que existe outra alternativa, que existe vida além daquela situação. Eu disse vida?

Vida. Cheia de seus movimentos, subidas e descidas, voltas e mais voltas, encontros e desencontros, ganhos e perdas, erros e acertos, certos e errados… Existe vida além daquela situação. Existem outras situações com suas particularidades, quiçá tão complexas quanto, ou até mais, que a presente.

Mas por que a gente insiste? Talvez por ser mais fácil, talvez por ser mais cômodo. “I was too weak to give in / Too strong to lose”, de acordo com o Dave Grohl (“Eu era fraco demais pra desistir / Forte demais pra perder”). Abandonar a situação e ir atrás de algo novo requer, no mínimo, força. Coragem.

Ou, então, como eu já tratei no texto anterior, talvez seja algo do que não dá pra simplesmente abrir mão, uma vez que nos dá um senso de alinhamento com qualquer que seja a natureza de cada um. Talvez, por causa disso, por mais que a situação esteja (muito) desfavorável, a gente simplesmente continue por causa da paz que isso pode nos causar. Mas isso nos dá a motivação quanto ao resultado final, e não as ferramentas pra suportarmos as intempéries que podem nos acometer no percurso. E o que é que dá pra fazer, afinal

No meu texto passado, eu disse que tudo na vida era esperança. Continuo nesse pensamento. Por mais desesperadora que a situação possa estar, penso que devemos sempre, pelo menos, tentar vê-la com bons olhos, desvendando o que podemos aprender com ela e quais qualidades e/ou defeitos nossos podemos trabalhar. Se alguém nos irrita, por exemplo, podemos ou explodir, ou aprender a exercitar a paciência. Claro que paciência demais também é prejudicial, então surge aí um novo aprendizado quanto aos limites. Mas divago.

Isso é o que pode ser aprendido, e, o que vai nos lembrar a todo momento do que pode acontecer se persistirmos, é a esperança, alimentada diretamente pelas visões do que quer que seja o objetivo final. Esperança essa que, ao meu ver, pode ser resumida como aquela visão pura de um cenário desejado, simplesmente pelo sentimento de paz, tranquilidade e harmonia que ele traz, mesmo que seja um cenário banal. Por exemplo, um dia de semana, às 19h 40min, chegando em casa depois de um dia de trabalho, e as expectativas do que fazer com o tempo livre naquela situação… Muitas das vezes em que pareço só estar olhando pro nada, eu, na verdade, dou uma espiada no futuro. Bom, talvez não no futuro, e sim em um futuro. Ajustes talvez (quase sempre) deverão ser feitos, e não podemos nos dar ao luxo de passar os dias imaginando a situação pronta e acabada sem nunca agir no mundo dos fatos, mas, que dá um fôlego novo, isso dá.

Talvez, ainda, seja parte da própria natureza humana não desistir. Não são poucos os casos em que fatalidades acontecem e temos nossos sonhos roubados (ou talvez eles apenas nos escapem — assunto pra outro dia), mas nem por isso quer dizer que desistiremos, ou que a vida não vai ser tão boa quanto poderia ser. Nessas horas, é reconhecer a perda, enterrar o morto e partir pra próxima mesmo.

E, pra resumir essas situações, acabo de me lembrar da música nova do Terra Celta. Acho que cabe bem.

Se meu coração aqui não acha respostas / Eu vou procurar em outro lugar