Por Filipe Pinto Soares. Disponível no seu Facebook e Instagram.

As redes sociais e o “complexo de Jesus (ou Maomé, ou Buda…)”

Começo este texto com uma nota sobre um outro que escrevi recentemente, onde partilhei a carta que o escritor João Tordo escreveu a propósito da saída do seu pai para o Brasil, supostamente forçado pelas condições económicas e sociais que vivia em Portugal. Tive, para minha felicidade, algumas conversas e interacções interessantes após ter publicado esse texto, essa é, afinal, uma das principais razões que me leva a manter este blogue, que me leva a publicar algumas das coisas que escrevo, ter conversas, de preferência interessantes. A própria história, que se transformou numa espécie de novela, teve alguns desenvolvimentos e levou a muitas respostas públicas, que o próprio João Tordo descreve na carta, e outras posteriores, como o texto, também amplamente divulgado, que o músico Fernando Ribeiro publicou no seu blogue. Nesse mesmo texto encontra-se uma nota final:

“(…) fico com pena dos familiares de Fernando Tordo, especialmente do filho João que conheço, estimo e cujos livros comprei e paguei. Simpatizo e entendo, como ninguém, a ausência. Mas esta é uma realidade de milhares de Portugueses. A minha realidade inclusive, já que não vejo o meu filho Fausto e a minha mulher Sónia há mais de um mês. Quando ele tinha 18 dias fui em tour. Quando ele deu os primeiros passos, estava fora. As primeiras palavras, também. Ninguém é mais que ninguém nas saudades. Ninguém é especial no sofrimento.”

— Fernando Ribeiro

O que me levou a partilhar a carta foi algo muito mais próximo desta nota do que a vontade de partilhar uma indignação sentida pelo estado do país, apesar de também a sentir muitas vezes por razões certamente diferentes. Reconheço que os breves comentários que fiz podem não ter deixado evidente as razões da minha partilha, que sinto agora que devo clarificar.

Ajudei na divulgação da carta por duas razões. Em primeiro lugar, porque a quis utilizar como um exemplo de um tema que me tem interessado, que me tem feito ler, investigar e estudar — o fenómeno da agressividade e crueza dos comentários nas redes sociais. Com a segunda razão, tive a intenção de partilhar um texto de que gostei, pela capacidade de expor, de partilhar de forma clara uma questão humana complexa, que revela uma qualidade do mundo interno que me tocou. Escrevi eu:

“Entusiasmei-me com a capacidade de escrever a realidade de forma tão clara, num homem que se dedica a escrever ficção. Comovi-me com a coragem e com a habilidade para colocar em palavras os afectos que parecem tão reais, tão autênticos, mantendo a elegância de não comprometer a intimidade. A sua e a da sua família.”

Não gosto de novelas, nunca gostei, nunca acompanhei nenhuma. Sou assim. Não foi a história, não foi o enredo que se criou em torno desse assunto que me interessou. Espero ter clarificado, para quem isso importe, a minha intenção e o meu interesse.

Depois desta introdução, que terá mais letras do que a ideia que me levou a escrever hoje, sem me afastar completamente do tema em questão, partilho uma reflexão.

As redes sociais, umas mais do que outras, as novelas mediáticas e a facilidade de partilha e acesso da informação, ajudam a preparar um terreno fértil para a emergência do que chamo o “complexo de Jesus (ou Maomé, ou Buda…)”, adaptação do mais conhecido “complexo de Deus”.

Há hoje uma tendência, uma vontade, que por vezes e para alguns se torna em necessidade, de ter seguidores; nota-se uma urgência em mostrar o nosso exemplo, a forma como vivemos o episódio X, resolvemos a situação Y ou ultrapassámos a adversidade Z, que quando aliada à pretensão de transformar essas histórias em receitas universais e, por isso, úteis para os outros, se tornam em pílulas pseudo-intelectuais que seduzem, alienam e iludem os mais ingénuos, divertem os cépticos e entristecem os sérios. Divertimo-nos, satisfazemo-nos, afastamos a profundidade e abraçamos a superficialidade ao ver como as discussões que criamos em torno dos pedaços de vida, criteriosamente seleccionados, que vamos partilhando obtêm respostas mais ou menos simpáticas.

Eu próprio posso ser acusado de sofrer desse complexo. Afinal tenho este blogue, estou nas redes sociais, leio notícias e sinto-me impelido e conhecer as que se transforma em novelas, embora não as siga nem as conheça a fundo, para não me sentir à parte das conversas da maioria. Ainda bem que cada vez menos sinto esse impulso.

Hoje confundem-se afectos com número de amigos, seguidores, subscritores, likes, retweets, corações, estrelas, visitas ou comentários. É triste.

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