Consciência, Aprendizagem e Sabedoria: Homenagem ao Avô Gaspar


Antes…

É dia 16 de Agosto de 2013. Acabo de visitar os meus avós paternos que entre ambos já deram 176 voltas ao Sol, repartidas irmamente. O meu avô regressara do hospital depois de uma estadia forçada. Temeu-se o pior, ou o melhor, dependendo da perspectiva.

O meu avô está vivo. O meu avô morreu. Das duas últimas vezes que o vi não estive com ele. Dirigi-lhe algumas palavras de afecto e carinho pois o avô que conheci as merecia. Muito me ensinou o meu avô, mesmo sem ser esse o seu propósito.

Esta foi mais uma das ocasiões onde aprendi, em que iniciei um caminho que me levará a algum tipo de aprendizagem. Sendo eu um curioso, sobretudo sobre o que à natureza humana diz respeito, esta experiência despertou-me um interesse particular num tema intemporal e que hoje parece estar na moda: a consciência. Interessei-me pelo significado desta palavra, deste estado, desta fase. Filósofos, escultores, psicólogos, escritores, médicos, biólogos, pintores e outros sem têm ocupado a compreender, a explicar e a expressar o que é a consciência. Todos eles investigadores e exemplares perfeitamente imperfeitos da natureza humana. Mesmo tendo a noção que sei infinitamente menos quando me comparo com estes outros, não diminui a minha vontade de pensar, de saber e de compreender, cada vez mais, quem sou, quem somos. Onde está o meu avô?

Li e ouvi recentemente que a consciência é um fenómeno biológico:

“A consciência consiste em todos os estados de sentimento, senciência ou de atenção (tradução pobre para awareness). Começa de manhã quando acordamos de um sono sem sonhos e continua até que adormeçamos ou morramos, que fiquemos inconscientes. Os sonhos são uma forma de consciêcia, segundo esta definição” (John Searle)

Não é uma ficção nem é algo imaterial.

Sem me alongar com grandes explicações ou interpretações, o mesmo autor deixa-nos aqueles aspectos da consciência que considera fundamentais:

  • Existe e é irredutível;
“A distinção entre a realidade e uma ilusão é a distinção entre como as coisas parecem de forma consciente e como são realmente. (…) Se nos parece, conscientemente, que estamos conscientes, então estamos conscientes”.
  • Todos os estados conscientes têm um caracter qualitativo, que leva ao terceiro factor;
  • Os estados conscientes são subjectivos por definição, já que apenas existem sob a forma de uma experiência humana ou animal. Há uma entidade que os experimenta;
  • Chega-nos em campos de consciência unificados, não experimentados a consciência de elementos ou manifestações isoladas mas sim como uma experiência una;
  • Funciona causalmente no nosso comportamento, partindo de uma intenção subjectiva há uma sequência de disparos neuronais que determinam a libertação de substâncias e a predisposição para receber ou inibir esses sinais. Imaginando uma acção simples como levantar um braço, encontra-se uma componente que vou chamar metafísica/espiritual/subjectiva e simultaneamente um conjunto de processos químicos, eléctricos e físicos. É uma ideia e ao mesmo tempo um conjunto de informações concretas. Um mesmo episódio, levantar o braço, tem um nível descritivo que é neurobiológico e um nível de descrição que é psicológico, e é um único evento.

A consciência tem ainda outras particularidades, fruto de muitos outros pontos de vista e de abordagem a este assunto. Mas não será por aí que seguirei pois agora há memórias, há ideias, vivem afectos muito mais importantes, muito mais presentes e intensos.

Paro de escrever para mais tarde continuar…

Depois…

Já é dia 8 de Setembro. O corpo do meu avô deixou de funcionar há três dias, muito tempo depois da sua consciência se ter deixado de manifestar, pelo menos da forma como eu e grande parte das outras pessoas estávamos habituados a conhecer. Agora sei onde ele está.

Já disse e já escrevi que muito aprendi com o meu Avô Gaspar. Foi ele que me ensinou a assobiar, a nadar sem bóias, foi ele que me mostrou como mergulhar do barco para as águas geladas das baías que se espalham para Sul e para Norte desde a vila de Sesimbra, foi o avô que me mostrou como controlar o pequeno coco com os seus remos que, mesmo sendo enormes, eram suficientemente leves para uma criança de 5 anos as poder manejar. Foi ele que, fora da lei, porque eu ainda não tinha idade suficiente, me ensinou a domar um carrinha a diesel, que utilizava para distribuir as suas vassouras e escovas por quem quisesse livrar-se do pó e pretendesse manter a sua casa ou estabelecimento imaculados.

Mostrou-me, para que eu aprendesse sozinho, que o afecto, o amor, está nas acções, nas intenções, está numa particular forma de estar. Por exemplo, “inventou” uma carta de marinheiro para mim e para o meu irmão, que “oficialmente” me atribuía as funções de remador de coco e vigia de baleeira. Só anos mais tarde quando fui tirar a carta verdadeira me apercebi que aquele documento de nada servia. O que não é verdade! O que conta, ainda hoje, é o que aquele papel plastificado, com uma fotografia minha e o carimbo oficial da capitania, significou durante todos aqueles anos, oferecendo-me um reconhecimento, uma confiança e um orgulho que, no fundo, eram dele.

Em todos os momentos que me acompanhou, tantas vezes com o meu irmão e com os meus amigos, mostrou-me que o amor quando é bem integrado e canalizado se transforma em paciência, em tolerância, e que quando esta se esgotava, o que não acontecia com frequência, apesar dos nossos esforços para a quebrar, o amor lá estava, mesmo nas reprimendas.

Revelou-me que a memória, mesmo quando o cérebro parece já não funcionar com a frescura de outrora, conserva os momentos que para os outros parecem insignificantes e que são inolvidáveis e marcantes para os que os viveram. Como uma das muitas idas à Feira Popular, já no fim da visita, numa altura em que lhe pedia moedas de forma incessante e insistente para fazer saltar e correr as tartarugas ninja, se volta para um amigo que nos acompanhava e lhe comenta: “este cabrão leva-me as moedas todas”, esperando que não o estivesse a ouvir. Mas eu ouvi, desde cedo capaz de prestar atenção ao que me envolvia, e respondi, mesmo sem saber o significado daquela palavra mas pressentindo que seria uma ofensa: “cabrão és tu!”

Mostrou-me que o humor é uma faceta com várias dimensões. Que podemos rir e fazer rir evocando as situações mais brejeiras ou encontrando as associações mais sofisticadas. Era a prova viva que estes dois tipos de humor, que vivem em extremos opostos, podem coexistir na mesma pessoa, numa mesma intervenção.

Exemplificou que a generosidade apenas vive quando acompanhada da honestidade, da integridade e da rectidão. E que todas estas qualidades, tão raras nos dias de hoje, quando condimentadas com a genuinidade, com a lealdade, com o afecto, com o sentido de família e de amizade fazem um homem extraordinariamente comum, diferente de todos os outros mas que se encaixa em qualquer um.

Não podia deixar de referir, procurando sair desta reflexão egoísta, que não fui o único a aprender com o Gaspar, que era “avô” ou “senhor” para muita gente. Ensinou aos outros e a mim por arrasto, que todas estas virtudes apenas o são quando existem em coerência, para todos, com as óbvias distinções pela proximidade das relações. Ensinou, certamente, o meu pai a ser um excelente avô do meu filho.

Nos momentos mais tristes e difíceis da sua velhice aprendi como não envelhecer. Ensinou-me que a dedicação aos outros sem simultaneamente haver uma dedicação a si próprio, pode trazer dissabores aos primeiros, sem que nunca tenha existido essa intenção. Ensinou-me que a dedicação a uma tarefa ou a um trabalho é fundamental apenas quando não se torna no centro de tudo, pois quando a vida nos traz outras circunstâncias, diferentes das que estávamos acostumados, quando esse centro deixa de o ser torna-se difícil encontrar um novo equilíbrio.

As músicas e as lengalengas que não esqueci, as asneiras que aprendi a não dizer ou a deixar sair na altura certa, as viagens de barco, os passeios de carro, as idas e as voltas ficarão comigo e passarão a todos os que eu tocar, a alguns em especial.

Ensinou-me sobretudo porque nunca teve a pretensão nem a pressão de me ensinar. Deixou que eu me encarregasse de aprender, apesar de eu pensar que ele nunca pensou nisto.

Disseram-me e eu concordo que “a morte é uma experiência dos vivos”. Mesmo na sua morte consegui encontrar uma triste mas boa vivência ao lembrar-me de tudo isto e ao escrever este texto.


Originally published at joaosevilhano.com on September 8, 2013.


Comentário da mãe e nora:

Queridos filhos e marido, como imaginam estou lavada em lagrimas. Primeiro porque estou triste e segundo porque me comovi com as vossas palavras. Também eu gostava muito e admirava o meu sogro a quem por convicção e opção chamava Pai. Quando, ainda em namoro o conheci, ele foi correcto mas como se costuma dizer, não me abriu muito os dentes, percebi porque. Já havia conhecido outras namoradas, sabia lá ele o que aquilo iria dar. No dia do casamento pedi -lhe autorização para o chamar de Pai, rasgou- me um sorriso deu- me um abraço e a partir desse dia reconheceu-me e tratou-me por filha. Quando o Pai viajava e me sentia desamparada ou a precisar de qualquer que fosse a ajuda, sabia que contava com ele. Foi ele também que me ia buscar a casa para me levar ao médico depois do parto do Jup, todos os dias. Foi ele que pagou almoços aos amigos e empregados sempre que lhe nascia um neto, tal era a felicidade e orgulho. Todas as outras qualidades do Avô já foram relatadas por vós, a mim resta me evidenciar a sua enorme disponibilidade e generosidade todos que partilhavam com ele afinidades. Nunca me vou esquecer dele como não me esqueço da minha mãe. Tenho mesmo a convicção que neste momento nos estão a ver, felizes e orgulhosos. Nós não os conseguimos ver porque como diz o meu querido neto Francisco Estão escondidos atrás das nuvens

Comentário do mano e neto:

Não podiam ser belas as tuas palavras.
Tive o prazer de partilhar tanto desses momentos contigo, e como nos riamos. Era o verdadeira humor pela naturalidade e simplicidade, pois quando queria ter graça perdia-a um pouco, género carnaval fazia sempre a mesma careta e pouco mais e isso até era engraçado.
Um verdadeiro homem, que me mostrou a grandeza da família que estava sempre em primeiro lugar, mas que em qualquer esquina podemos encontrar família também com a amizade..
Parece que ñ consigo escrever depois de tudo o que li, foi lindo mano, foi um pouco de tudo o que é o avô. Já tenho saudades dele, mas todas essas saudades revertem-se em recordações boas.
E aprendo tbm muito com a morte e com a justiça, pois já n esta a ser justo para o Avô, já ñ era sustentável, e faz-me pensar que devemos viver a morte para persistir na vida… é a nossa dualidade mais certa e é bonita quando percebemos o que aconteceu ao avô. Que pouco mais poderia fazer, eu sinto e ñ estou dentro dele por isso ñ o sei a fundo, mas vejo-o como um Homem que queimou todos os seus cartuxos, explorou tudo e pouco ficou por fazer. E é um exemplo de vida.
As pessoas que fazem parte de nós ñ desaparecem, criam-se em novas formas..
É o Avô dos Avôs…
Beijinhos Mano, tbm me orgulho muito de ti e tbm do Pai.
Que momento bonito

Comentário do pai e filho:

Obrigado querido filho por este texto de homenagem ao avô Gaspar. Conseguiste comover-me. De facto o meu pai foi uma pessoa fora de série. No seio da família e entre os amigos. Neste último caso era um empreendedor de iniciativas. Era normalmente dele que surgiam as ideias para comemorações, viagens, patuscadas, aprendizagens de línguas estrangeiras ou ensaios de peças de teatro. Era a força dinamizadora que os outros seguiam gostosamente. Perseverante, por vezes teimoso, fazia acontecer.
Na família era o companheiro e amigo. Tu já descreveste toda uma série de episódios da tua vivência.
Aprendi muito com ele. Nos negócios, na vida, no convívio, na família. Muito do que sou hoje a ele o devo. Os valores da honestidade, do trabalho primeiro e diversão depois, algum sentido de humor. A vontade de fazer acontecer e uma visão positivada vida.
Estou muito triste com a sua partida. Chateia-me o facto de não o voltar a ver, de não o ter por perto para lhe chamar “soba” e lhe fazer “judiarias”.
Mais uma vez obrigado pelo teu escrito.
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