Da vivência das palavras

Para mim, as palavras não são apenas símbolos que se utilizam descriminada e indiscriminadamente; não são apenas traços de tinta que se desenham, mal, no meu caso, no papel; não são apenas “zeros” e “uns” que se conjugam de forma programada e que fazem parecer magia o bater de teclas que vai pintando as telas em branco de um qualquer ecrã; não é somente o ar que sai, sob a forma de sons conhecidos, que nos sai orquestrado pelas bocas em movimento; não são apenas conjuntos de letras que, organizados de forma convencionada, nos veiculam sentidos e significados.

Para mim, as palavras vivem, vivem-se. Por isto, as palavras que digo e que escrevo não são apenas palavras. São vivências, são experiências, são afectos. Por isto, também, as palavras que escuto e que leio não são recebidas apenas como palavras, são vividas, são experimentadas e são sentidas.

Contradizendo-me, também sei, sinto e experimento que nem todas as palavras podem ser vividas. Há quem as diga ou escreva, apenas, enquanto desconhece que isso não é possível. Por outro lado, e provavelmente por saber que nem todos vivem desta forma, reconheço que não me deixo viver tudo o que oiço ou leio. Mas se decido escutar, não ouvir, escutar, com os ouvidos ou com os olhos, então decido viver. Porque há palavras que são ditas ou que são escritas que não são possíveis de não serem vividas. Assim são porque, também elas, foram soltas carregadas de “contrabando”, carregadas de experiências, de vivências e de intenção.

Quando assim acontece, não são as palavras que são trocadas, são as vidas que se cruzam.

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