Fazer-se companhia

Uma notícia que li no início do passado mês de Julho despertou-me a memória de uma nota que escrevi no início do primeiro mês deste ano. Esse texto ficou longe dos olhos de terceiros, como muitos outros que escrevo ficam. Não o vou publicar na íntegra, até porque lá há assuntos que devem permanecer apenas para os meus olhos.

“Tu não podes saber o mesmo que eu”, ouvi dizer. “Há uma zona de intimidade que não pode nem deve ser partilhada”, foi uma expressão que já me disseram várias vezes. Creio que estas duas ideias estão relacionadas com as que se seguirão.

“Nada” foi o título que dei à nota que escrevi em Janeiro. Lá encontrei isto:

Para mim, nos dias que correm e em que vivo, é-me relativamente fácil encontrar razões para a existência de um tipo de ansiedade que resulta do ócio. Resultará de uma necessidade em nos sentirmos úteis, a produzir, a contribuir, seja para o que for. Muitas vezes não se sabe bem para quê. Muitas vezes não se encontra um sentido paras as nossas acções a não ser a (in)comodidade da repetição ou questões meramente funcionais, não ontológicas. Na melhor das hipóteses, os que conseguem ter algum nível de consciência, para além de um sentimento difuso de desconforto, não concordam ou não se sentem alinhados com o fim último da sua contribuição.
(…)
Estará relacionada esta dificuldade com aquela que é, para muitos, a angústia fundamental — o medo da morte? Esse sim, o estado desconhecido mais próximo do nada, do vazio. Sim, desconhecido, porque da morte nenhum vivo tem experiência. De forma paradoxal, a morte é uma experiência apenas reservada aos vivos.
Parece-me que é difícil para muitas pessoas aceitar a ideia de que o nada não existe. Que é apenas uma construção humana para servir de oposto ao que é a nossa experiência constante. Porque a pensamento binário nos é tão confortável, tão reconfortante, tão simples.
Na interminável tentativa de simplificar aquilo que é a nossa experiência, a nossa vida, perdemos de vista o que parece óbvio: que abraçar a complexidade é o caminho mais certo para tomar, por mais difícil que pareça mantermo-nos nele.

As notícias que li, aqui e aqui, informam sobre as conclusões de um estudo que comprovou a dificuldade que as pessoas que nele participaram tiveram em cumprir o desafio de não fazer nada durante 6 a 15 minutos. Entre outras, os investigadores afastaram a hipótese de ser a tecnologia a causadora desta crescente incapacidade para estar só, “entretido” com os próprios pensamentos. Parece que a dificuldade não está relacionada com a idade ou a utilização de telemóveis e redes sociais. Para mim, o cerne da questão não estará aí.

Julgo que será demasiado redutor estar a associar a dificuldade de estar só, com as próprias ideias, pensamentos e sentimentos, ao uso das novas tecnologias, redes sociais e internet. Mas o meu julgamento não se fundamenta apenas na idade e propensão para o uso dessas capacidades. Mesmo os participantes do estudo em questão que não são adeptos nem utilizadores das novas tecnologias vivem e convivem no mesmo espaço e tempo que os que são. Serão, por isso, permeáveis, sensíveis e influenciados pelo actual zeitgeist, tal como os outros.

Por outro lado, ser capaz de estar só não significa apenas sermos capazes de nos entretermos a nós próprios. O escritor Mario Vargas Llosa explicou bem aquilo que penso sobre o assunto:

“As imagens substituíram as ideias. A palavra, que era inseparável das ideias, passou para segundo plano nos meios de comunicação. Hoje, o fundamental é a imagem. Fica tudo à superfície. A maior parte do que se anuncia como arte não é arte, é uma anestesia através do entretenimento. Formas de um prazer efémero.
(…) No momento em que as pessoas se deixam adormecer tão facilmente pelos grandes meios audiovisuais de comunicação, podemos desembocar numa sociedade altamente tecnológica, mas em que as pessoas se transformaram em autómatos, sem espírito crítico.”

— Mario Vargas Llosa in Concordamos em Discordar (blogue no Tumblr)

Sempre existiram dois tipos de pessoas: as que decidem viver à superfície e as que se arriscam nas profundezas. Os primeiros sempre foram a maioria, isso não é diferente hoje do que foi no passado, acredito. Parece-me claro que a escolha de ter uma “vida entretida” ou de se querer viver em pleno nem sempre é consciente. As mulheres e os homens que se apercebem que pode haver mais para além da superfície tendem a aventurar-se pelo desconhecido, tanto dentro como fora de si. É claro também que não há apenas dois tipos de pessoas. Há também as que, mesmo depois de espreitarem para lá do que à primeira vista se consegue observar, não têm a capacidade ou julgam que não podem ir por esse caminho, resignando-se ou voltando apenas a uma vida de entretenimento, da procura da satisfação imediata dos desejos.

Apesar de não ter base para poder comparar os dias que correm com os de um passado já distante, como ninguém terá, por não viver tempo suficiente para isso, sou levado a concordar com o Vargas Llosa, o Evgneny Morozov e tantos outros quando dizem, pelas suas próprias palavras, que hoje há uma tendência e tentação pelo simplismo, pela receita rápida pela satisfação imediata do desejo.

Fantasiar e viver com e na incerteza são capacidades que estarão ligadas a este assunto. Mas isso ficará para outras reflexões e, quem sabe, para outros textos.

Voltando ao desejo, esse, será tão mais completo, tão mais complexo, tão mais sofisticado e a sua satisfação será tão mais gratificante e duradoura quanto quem deseja conseguir suportar que ele, o desejo, possa não ser satisfeito.

Estar só implica reservar um espaço de intimidade que não pode nem deve ser partilhado, para recuperar uma das ideias com que iniciei este texto. Ser capaz de estar sozinho é também conseguir entreter-se; é conseguir não revelar “segredos” que descobrimos sobre nós próprios; é conseguir suportar ter segredos que nós próprios desconhecemos; é conseguir suportar não saber tudo; é conseguir que nos bastemos enquanto companhia, não sempre nem para sempre, contudo. Tudo isto para que os momentos de partilha possam ser mais autênticos e genuínos.


One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.