Por Evan Holm. Descoberto aqui.

Gosto de chuva

Gosto de quando chove na cidade. Gosto particularmente da chuva em Lisboa. Gosto da forma como as gotas se amontoam nas extremidades dos edifícios, de como aí ficam a engordar até não mais aguentar, precipitando-se em direcção à calçada. Gosto da forma como os carris dos eléctricos se transformam em pequenos rios, correndo mais depressa ou mais devagar consoante a inclinação da rua — e tantas ruas inclinadas tem Lisboa. Quando apanho um desses rios a correr sou invariavelmente transportado para um estado de criança, apetece-me dobrar uma folha de papel para que se pareça com um barco e colocá-lo a descer, por exemplo, a Calçada da Estrela. Deveria descer rápido!

Gosto da chuva no campo. Gosto do cheiro a chuva, que na verdade não existe. Gosto do cheiro da terra molhada, do alcatrão encharcado, da casca de eucalipto arrancada pela água e pelo vento. Gosto da forma como a luz reflecte nas dezenas de pequenas gotas que ficam nas folhas dos pinheiros no instante em que termina de chover e o sol se descobre entre as nuvens.

Gosto da chuva na praia. Gosto das pegadas que a chuva deixa na areia. Gosto de estar dentro de água quando parece que as gotas de lá saem, desafiando a gravidade. Gosto de imaginar o ciclo da água, que enquanto as gotas enchem o mar ele está a evaporar enchendo de volta as nuvens.

Gosto da chuva quando estou a conduzir. Gosto da sensação de estar protegido enquanto chove, de estar tão perto da água sem que ela me molhe. Gosto das formas mais ou menos caóticas que o vento ajuda a desenhar nos vidros enquanto o carro anda. Gosto do ritmo dos limpa-pára-brisas que juntam as gotas de água em fios que são prontamente desfeitos. Gosto de ver as gotas a desaparecer da viseira do capacete quando acelero, como se soubessem que ali não estão bem.

Gosto de chuva, mas estou farto!

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