Irritação

Se há coisa que me irrita de forma profunda é descobrir que o tempo que passei num pára-arranca se deveu a um acidente que acontecera no sentido contrário. O grau de irritação é proporcional à quantidade de vezes que tenho de engatar a primeira, equilibrar a força que deixo de exercer sobre o pedal da embraiagem com aquela que faço com a perna direita para que o carro ande uns metros sem soluçar; tirar o pé que estava no acelerador para pisar o travão enquanto volto a esticar a perna esquerda para não deixar que o motor se engasgue. Para não me aborrecer e para evitar que o braço direito fique dormente, às vezes desengato a primeira e outras vezes não, permitindo descanso à coxa esquerda que estava contraída; de forma aleatória, lá está, para criar uma espécie de jogo e me iludir quanto ao domínio que tenho sobre aquela rotina. Apercebo-me que a decisão de não mexer no manípulo das mudanças nem deixar a perna esquerda descansar é alimentada pela esperança de poder andar mais uns metros ou, quem sabe, até engatar uma segunda, uma terceira e por aí em diante, vendo-me livre de repetir aquele ciclo infernal. Mas a exigência do travão impõe-se demasiadas vezes e lá se desfaz a expectativa.

Sim, ao contrário de um qualquer incidente que se dá no sentido que estamos a seguir, onde há a real possibilidade de ficar parado, sem ter de entrar no tal repetitivo exercício físico para domar a máquina, se é a curiosidade e o voyeurismo que fazem esperar os que vêm atrás não há como fugir da irritação.

Não conheço ninguém que goste de estar num pára-arranca. Não quer dizer que não existam essas pessoas. Nem posso dizer que não tenha passado bons momentos numa dessas circunstâncias. Mas não tenho memória de não me ter irritado quando vejo que não existe nenhuma razão para abrandar ou até mesmo parar apenas para ver, sem qualquer intenção, imagino eu, em 99% dos casos, de fazer alguma coisa a não ser isso mesmo. A irritação é tal que nem as inúmeras tentativas de racionalização que já percorri me ajudam a aliviar aquele calor que me sobe às raízes dos cabelos. É como se os ilustres condutores se tornassem instantaneamente em peritos de seguro automóvel, a avaliar os estragos, ou técnicos forenses, quais CSI, a descortinar de quem terá sido a culpa e a reconstituir a “cena do crime”.

Enfim, antevejo que esta irritação não se dissipará. Poderia, quem sabe, transformar-se em sobranceria ou qualquer outro tipo de superioridade em relação aos que param ou abrandam apenas para ver. Feitas as contas, acho que me vou continuar a irritar, mantendo a dita dentro do habitáculo.