Maentis

Os beneficios (?) das redes sociais

Num dos últimos textos que escrevi — As redes sociais e o “complexo de Jesus (ou Maomé, ou Buda…)” — recebi alguns comentários e foi-me lançado um repto que me entusiasmaram. Na altura não respondi; quis dedicar o tempo que fosse suficiente para reflectir e para esperar que uma imprevisível inspiração pudesse juntar-se.

Não estou certo de que o ar que inspirei até agora, depois de duas semanas sem publicar nada aqui, tenha trazido alguma ideia luminosa. Aliás sinto o contrário. Sinto que escrevo, desta vez, mais por compromisso do que por prazer. Com a sensação de que no fim sentirei, pelo menos, alívio por ter desenhado mais um “certo” ou um “visto” num item da lista de tarefas semanais, continuo a escrever. Sigo com o desejo de que o final traga mais do que a satisfação de cumprir com uma obrigação auto-imposta.

O desafio que o meu amigo Pedro Mateus me lançou foi escrever sobre sobre o lado positivo das redes sociais. O entusiasmo que referi no início deste texto rapidamente se transformou numa espécie de frustração, à falta de melhor palavra. O lado positivo das redes sociais… Não imaginara que escrever sobre isto seria uma tarefa tão difícil para mim. Que intriga é esta que me paralisou os dedos durante duas semanas e que não me deixa sentir o prazer habitual de escrever?

Só agora, enquanto escrevo, me dou conta de uma ideia: positivo tornara-se uma palavra pesada. Será que o que eu escrevi foi negativo, em relação às redes sociais, quero perguntar? Eu não procurei fazer esse juízo, não era essa a minha intenção. O que queria era descrever uma realidade que vejo, que sinto e que vivo; que não está certa nem errada, a não ser para mim, que está, obviamente, correcta, até conseguir ver melhor outra. Ou será outra melhor? Prevejo que este peso que sinto tem que ver com uma dificuldade em olhar para as coisas apenas como negativas ou positivas, como brancas ou pretas, boas ou más. Interessam-me muito mais os matizes, os efeitos, os impactos, as utilizações e os propósitos. Tanto os que são explícitos como os ocultos. Sobretudo os últimos.

Apercebo-me que o que me dá gozo é a mistura entre um certo cepticismo e a uma crença cega e, necessariamente, destrutível. É essa a forma como gosto de viver. Não dando nada como garantido, questionar e ao mesmo tempo aceitar “entrar na onda”. Só este vai-e-vem permanente entre o estar dentro e estar fora, estar próximo e estar distante, estar lúcido e ser crente, consciente e inconsciente me permitem ter uma visão, julgo eu, mais abrangente. Dá trabalho e permite desfrutar, permite sentir prazer e aumenta o sofrimento, traz felicidade e tristeza, satisfação e frustração. Mas será assim mesmo a vida.

Voltando às “plataformas tecnológicas de (pretensa) interligação humana, ou as redes sociais, tenho para mim que o seu grande benefício, que será diferente do seu efeito positivo ou negativo, é a ampliação. São um megafone com um efeito multiplicador e difusor na divulgação de ideias e notícias. Eu próprio já tinha reconhecido isto ao constatar que mais de metade dos visitantes deste blogue são provenientes do Facebook, onde estas publicações são partilhadas de forma automática. A pertinência contemporânea dos facebooks, twitters e afins será equivalente à que se viveu com a proliferação do email há uns anos atrás e, ao fazer-se o caminho do presente para o passado, o mesmo se pode dizer da televisão, dos telefones, da correspondência escrita, etc., nas suas épocas respectivas. Imagino que discussões e reflexões como esta se fizeram e continuam a fazer em relação a esses meios, às vantagens e desvantagens que trouxeram, ao positivo e negativo que têm em si.

Continuando com a ideia das redes sociais enquanto megafones, há que reconhecer que estes não são os aparelhos mais versáteis, embora até música se faz com o som que produzem. Há gostos para tudo, mas o som que sai de um megafone, ampliado e distorcido não é, pelo menos para mim, o mais agradável. Por outro lado, estes aparelhos nada fazem em relação ao conteúdo e à intenção de quem os utiliza. Limitam-se a tornar mais ruidoso o som emitido pelas cordas vocais de quem os utiliza.

Vejo-me a ir ao encontro daquela frase muito utilizada pelos defensores do direito ao uso de armas: “as armas não matam pessoas, as pessoas é que matam pessoas”. O mesmo se pode dizer das redes sociais: não são as plataformas que fazem mal, é o que lá se coloca que está mal. Não vejo, apesar deste encontro, que seja assim tão simples. A questão não estará apenas no conteúdo, estará mais na intenção, nas motivações, conscientes e inconscientes, que levam nos levam a aderir e a utilizar. O que nos leva a querer espalhar as nossas palavras?

Por outro lado, continuando com a analogia com as armas, quais as intenções de quem fabrica armas? Quais as razões explícitas e as intenções implícitas de quem cria e gere as redes sociais? Sim, há uma gestão feita de forma mais ou menos automática e totalmente intencional. Há sempre alguém por detrás do código, dos algoritmos. Para mais sobre isto volto a sugerir a leitura do Evgeny Morozov.

“The problem with email now is that the social conventions have gotten very bad. There’s a 24/7 culture, where people expect a response. It doesn’t matter that it’s Saturday at 2 a.m.–people think you’re responding to email. People are no longer going on vacation. People have become slaves to email. It’s not a technical problem. It can’t be solved with a computer algorithm. It’s more of a social problem.”

— Paul Buchheit, criador do Gmail.

Um dos argumentos muito utilizados por todas as redes sociais é a oportunidade de ligação entre as pessoas que proporcionam. De facto, através delas, movem-se pessoas que criam revoluções necessárias; vê-se projectos a nascer que nunca veriam a luz do dia sem a sua existência; assiste-se a reencontros entre velhos amigos, familiares distantes, animais perdidos e outras felizes e infelizes tragédias da humanidade.

Por outro lado, criam condições para um novo tipo de violência; novos tipos de manipulação e censura. Criam também, para mim, um dos seus maiores perigos, a ilusão de companhia que pode levar à solidão e isolamento.

Curioso este aparente paradoxo: as redes sociais podem levar à solidão e ao isolamento.

Portanto, acredito que, como em tudo, as redes sociais têm tanto de vantajoso como de perigoso. Tudo dependerá de quem está por detrás do gatilho ou, neste caso, de quem pressiona a tecla “enter”.

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