Uma explicação (demasiado) simples

De manhã, cedo, enquanto fazia uma das rotineiras viagens de carro entre casa e o escritório, dei por mim a pensar no tema a que os anglo-saxónicos normalmente designam por Nature vs. Nurture. Não consigo perceber porque me surgiu esta linha de raciocínio, é quase como quando me tento lembrar dos sonhos, que a mim tão difícil é de os recordar. Sei sim que um turbilhão de ideias estava em revolução no interior daquele carro, havia o barulho de fundo, imagino que dos carros, do rádio e do que por lá se dizia e tocava, mas disso não tenho qualquer memória porque o que pensava estava com volume demasiado alto para poder prestar prestar atenção a qualquer outra coisa. Ainda bem que temos, tenho, a capacidade de automatismo suficiente que me permite continuar a conduzir o carro nestas ocasiões.

Voltando à reflexão, difusa e pouco clara porque eram muitas as associações, fiquei-me por um conjunto de ideias, já mais fáceis de recordar.

“Depois de tanto tempo, Descartes deixou uma herança pesada”

Tenho dito e escrito, em mais do que uma ocasião, que as grandes questões sobre a natureza humana continuam a ser as mesmas. Nos últimos tempos, depois a Revolução Industrial e da posterior “Revolução Científica”, por mim designada de forma arrogante e provavelmente errada, essas mesmas questões têm sido abordadas utilizando a mesma porta de entrada: o corpo.

Depois de tantos séculos de parco e lento avanço no mundo da ciência e da produção de tantos e bons pensadores até início do século XX, parece que nos fartámos da nossa outra faceta, da que não é palpável nem mensurável. Resolvemos o dilema de Descartes de forma fácil, ignorámos uma das dimensões.

“Se não podes medir não existe” e “Se não observo não existe”

Os avanços na medicina, nas neurociências, na biologia e na área da genética todos têm como base o mundo físico, concreto e objectivo. Afinal será disso mesmo de que se ocupa a “verdadeira” ciência.

É no corpo que cada vez mais se procuram encontrar as causas e razões para o nosso comportamento e maneira de ser e estar no mundo. Hoje tudo tem explicação e solução física e/ou química, resolvemos os nossos problemas, até aqueles que não vemos mas só sentimos, através de ajustes de quantidades.

“Se não podes medir não podes gerir”

Em paralelo, no contexto empresarial vivemos na ilusão do controlo, do lucro e da produtividade há muito tempo, há demasiado tempo. É como se tivéssemos aproveitado esta onda de progresso na “verdadeira” ciência para explicar, justificar e utilizar uma série de práticas que de forma flagrante não são justas nem promovem evolução no que diz respeito à compreensão do fenómeno humano como um todo. Pelo contrário, têm tido efeitos perversos.

Tem-se tentado entrar por uma nova “onda”, a da inteligência emocional, o equilíbrio entre vida e trabalho (que expressão tão má!) ou a felicidade, como se já se soubesse o que é… Contudo, muitas vezes estas “novas” ideias ignoram o muito que já se pensou, se escreveu e se disse durante séculos de dedicação à compreensão humana, pelo menos do seu lado metafísico. Além disso, confesso que muito do que se diz e se faz neste âmbito me envergonha…

Para já, é claro para mim que há um desequilíbrio entre as duas “naturezas”, a física e a subjectiva, o que é do corpo e o que é da mente. Provavelmente vivemos numa fase de compensação relativamente ao incomensuravelmente mais longo período em que a humanidade se dedicou a entender o mundo de outra forma. É assim, tendemos a ir para o extremo oposto para equilibrar as coisas…

Curioso é ver que nas chamadas civilizações menos evoluídas não se notava esta diferença de peso. Havia, em grande parte dos casos, uma maior harmonia entre o mundo físico e o mundo metafísico. Não quer dizer que essa harmonia fosse boa para nós, basta lembrar algumas das atrocidades que muitas civilizações cometeram. O mundo hoje é diferente, nós somos diferentes, mas a nossa natureza mantém-se. E essa não se divide em alma e corpo, é uma só (de alguma forma, o Damásio tinha razão quando disse que Descartes estava errado).

Há um exemplo que, para mim, ilustra bem o tipo de conjugação que considero ser o caminho acertado que o conceito de hereditariedade. Estou habituado a ouvir e ler que quando se fala de algo que é hereditário normalmente apenas se refere à questão física, genética. Quando não é transmitido geneticamente é porque é “uma coisa educacional”. Ou é um ou é outro. E se considerarmos os dois? Há um conceito psicanalítico, a transgeracionalidade, que combinado com a hereditariedade poderia tornar muito mais ricas e abrangentes as possíveis novas reflexões e descobertas. De forma muito bruta este conceito, descreve uma forma de transmissão através das matrizes relacionais e afectivas ao longo do tempo. Da mesma forma que recebemos informação genética dos nossos progenitores, recebemos também “informação” afectiva, que passa de geração em geração.

Claro que tudo isso tornaria a ciência mais difícil. É mais fácil isolar as variáveis, de preferência as que conseguimos controlar, e estudá-las. Afinal temos que conseguir replicar para poder chamar “verdade” ao que descobrimos.

Aliás, na minha percepção, hoje há uma vontade evidente em “ascender a outros níveis consciência”. O que continua a ser triste para mim é a tendência para optar pelos caminhos fáceis: drogas, explicações simplistas, fuga, fundamentalismo, etc..

Talvez o desafio não seja mudar o mundo em direcção a um “novo ideal” ou uma “nova consciência”. Talvez o desafio seja aprender a viver bem neste mundo. Talvez dessa forma, ao tocar e influenciar, através do nosso exemplo, as pessoas que nos rodeiam, esse mundo venha a acontecer.

Para que possa acontecer tal mudança, a elite das pessoas com qualidade humana possa sobressair. Porque hoje “a elite” não tem grande qualidade.

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