A tia varredeira
Há quanto tempo a senhora tá aqui embaixo? Pra mim não vai demorar muito, eu sei. Já já me deixam subir e arrumar os quartos. É verdade da cobertura?, dá pra ver o mar e a lagoa? Dou por certeza que chego lá. Sabe quem falou? Dona Helena. Tá bom, tá bom. Sair da boca dela não saiu, mas eu vi, percebi. Ela sorriu pra mim. Não contam que a mocreia só gasta simpatia com hóspedes? Pois comigo esticou a bochecha. E a senhora? Ela já te sorriu alguma vez?
A senhora conheceu a Grasielly? Foi arrumadeira que nem nós. Bonitona, carnudona, prima duma colega. Diz que não parou aqui nem 3 meses. É, menina, essa aí fez que fez bonito. Pegou o gringo pelo bundão e não largou mais. O italiano ficou maluco, levou pra fora, não quis nem saber de documento. Outro dia ouvi que se casaram. Já pensou? A garota fazia faxina que nem eu, pretinha bonita que nem eu e mudou pro estrangeiro igual princesa.
Que mau humor, hein, vou te contar… Eu não tenho culpa de ser moça não, tá ouvindo?, de ter tudo no lugar. A senhora tá é com inveja, toda velha, toda sozinha. Só mesmo essa vassoura pra querer uma múmia seca feito você.
Ah, criança, quer mesmo que a Tia responda? Quer escutar o quanto de ruga que te espera? Sim, sou velha, sim, a Tia acabou esquecida que nem moeda atrás do sofá. Mas já estive aí, nesse mesmo corpo cheio de firmeza. Aproveitei, esbaldei, de tudo eu fiz. Tempo bom, minha filha, volta não. A Tia era de calar o samba.
Também sonhei meus sonhos, a Tia teve essa idade tua. Quando a gente é novinha assim, que futuro não é ilusão? Meu primeiro serviço foi no hospital. Toda prosa de avental alinhado, radiante que nem um poste. A Tia queria ser enfermeira, sabe?, enxugar a testa do cirurgião, dar de comer aos doentes. Papai ria da minha cara. Dizia que preto não combina com uniforme branco. Aqui pra ele!, se fosse dar ouvido a homem, num botava o pé na vida. Taquei a mão na vassoura e me fui. Saltava do primeiro bonde, bem cedinho, e esfregava aquilo tudo, do térreo até o teto. Dr. Euclídio linha dura, explicou sem se repetir: limpeza no hospital era coisa de vida ou morte.
Tinha os dias de alegria. Nenê novinho novinho, a carinha escondida no gorro, tão bonito os pais de braço dado. Menino levado, ê danação, aprontava no telhado e voltava com cicatriz fresquinha. Eu lembro mesmo foi duma noite, essa ficou gravada a martelada. Um mundaréu de gente no saguão, parente, repórter, todo mundo sujo enlameado, nossa, ia me dar uma trabalheira. Teve uma batida braba não sei onde, coisa feia de verdade, a ambulância berrando a sirene, entregando ferido sem parar. Nessa hora eu tava em cima, no terceiro andar, isso, no corredor da emergência. Um entra e sai de médico e enfermeira e, como é que chama?, anestesista?. O pessoal correndo com saca de soro, instrumento, um coitado gemendo na maca. Uma confusão, um desespero, e a Tia ali, menina ainda, segurando a vassoura pra não cair.
Aí num canto, assim, sentado na escada, eu vejo um senhor. Branquelo meio magrelo, careca, um curativo de pirata no olho. A camisa azul é sangue puro, nossa, precisava ver que mancha roxa — Almerinda depois contou que era o motorista. Ele levanta meio torto e vem pra mim. Eu não sou enfermeira, nunca fui. Se o homem tem um troço, meu pai eterno, como a Tia ia fazer? Ele se aproxima e me abraça, uma aflição, o cheiro enjoado de remédio, o queixo ossudo espetando o ombro. Começa a chorar, se desfaz que nem menino. Não teve culpa, teve não, o ônibus lotado, meu Deus, criança no meio, não foi dele a culpa não. Toma a vassoura da mão da Tia. Vai varrendo, juntando a sujeira. Poça de vômito, gota de sangue, onde a parede faz quina, a escada degrau por degrau. Foi limpando, soluçando, passando a vassoura feito um condenado.
Por isso, meu amor, a Tia pergunta: você quer seu gringo? Quer dormir na ponta da cobertura? Maravilha, muita sorte, até deixo uma palavra com Dona Helena. Agora, chega de papo, minha filha, quanta perturbação. Deixa a Tia quietinha, deixa, que meu chão pra esfregar ainda falta um bocado.